ORÇAMENTOS, PLANEJAMENTOS E CANTEIROS DE OBRAS | Ano 03 . nº 17 . 01/03/2003
O Internético Agoniado
Qualidade Real
Educação na Sociedade do Conhecimento
Meio Ambiente: Problemas Ambientais V |
Por mais que busquemos, apenas nos encontramos a nós próprios.
- Anatole France.
|
| INTERNET |
Ruminando a matéria
anterior com Sérgio Buarque, ficamos a nos indagar
como estaria hoje o "homem cordial". Como vive, e a
quantas por hora estará sua cabeça? E, como
Sérgio, partimos em busca de apropriadas fontes de
pesquisa até que, ocasionalmente, veio parar-nos às
mãos uma sigilosa estatística dos maiores mecanismos de
busca no país, contendo as 250 palavras mais
solicitadas pelos internautas nas caixinhas de texto, um
preciosíssimo material para os nossos propósitos.
Afinal, refletimos, "os anseios são o homem" ou, mais
modernamente, "o homem é aquilo que busca", que cunhamos
justamente ao iniciar nossos estudos, e que nos levou
a concluir de imediato: "nunca se buscou tanto quanto
nos sites de busca da Internet". De fato, estas 250
palavras e frases digitadas por aflitos
buscadores, o nosso modelo, atingiram 2.551.543
buscas no último mês. Uma amostragem extremamente
significativa e que nos garantiu resultados imparciais e
cientificamente dignos de créditos. Descobrimos coisas
surpreendentes, inclusive a causa da relação não ser jamais
revelada, e conhecemos melhor nosso leitor.
Extrapolamos o escopo de nossa pesquisa adentrando
fundo na psiquiatria e na natureza da alma humana.
Freud ficaria estupefacto e Rousseau (O homem é
genuinamente bom) com a pulga atrás da orelha, com
nosso substrato em mãos. Observe-se que as
"buscas" do internauta, muitas vezes em altas horas da
noite, interessado, sem nenhum constrangimento ou receio, e
na solidão de sua consciência, é muito mais expontânea,
autêntica e natural, que o próprio sofá do psicanalista, por
mais macio que seja e por mais à vontade que se
esteja.
Por questões didáticas, e evitando a monotonia
de uma relação quantificada e itemizada,
optamos por uma classificação em categorias
expressivas, ou seja, os principais anseios do
homem cordial atual , o qual passamos a
rotular de...
O INTERNÉTICO AGONIADO
Em vão procuramos a verdadeira felicidade
fora de nós, se não possuímos a sua fonte dentro de
nós. Marquês de Maricá
Pasmem. O Internético está
mesmo quebrado, e atolado em dívidas.
Sua maior preocupação é a devolução do
imposto de renda. Quer fazer sexo, se
possível de graça, e como os antigos esta
é sua única distração, e como a cigarra ainda
vive cantando.
Ama pouco, viaja pouco, preocupa-se com
a saúde, política, cultura, em pagar impostos,
e está tentando obstinadamente se comunicar
com seu igual.
Só pensa em sexo (539.171 vezes),
depois na receita federal (277.808) e
está meio sem rumo. Seus interesses mais
significativos são:
|
. As
pessoas dividem-se em duas categorias:
umas procuram e não encontram, outras
encontram mas não ficam satisfeitas
- Autor desconhecido.
| MUDANDO DE CANAL
(13,03%) A procura por outros mecanismos para,
evidentemente, repetir as mesmas palavras demonstra que o
Internético está meio desbaratinado. Os mais
digitados da Categoria foram: uol (palavra
recorde, com 191.153 buscas), cade (28.573),
google (20.503), globo (17.561), ig
(14.659), bol (14.404), yahoo (13.475),
hotmail (11.951), sexy (10.248), terra
(6.629), etc.
IMPOSTO DE
RENDA E OUTROS IMPOSTOS receita federal
(100.531 - combinação recorde), detran (31.667),
imposto de renda (12.466), declaração de
isento (9.167), ipva (8.220), inss
(8.079), multas (6.687), diário oficial
(5.166), michê (1.023), etc.
BANCOS E INSTITUIÇÕES
FINANCEIRAS caixa econômica federal
(13.410), itaú (13.051). banco do brasil
(11.730), bradesco (10.558), unibanco (4.237),
banco de sangue (1.044), etc.
Subcategoria
Recatada
emuladores (12.835),
mulheres (9.478), porno (9.158),
famosas (6.116), etc.
CATEGORIA COMUNICAÇÃO cartões
virtuais (81.372), mensagens (31.994),
bate-papo (22.558), fotos (11.903),
mapas (10.451), telefônica (8.533),
telemar (8.381), cep (7.480), turísmo
(7.345), rádio (6.880), filmes (6.684),
lista telefônica (6.259), vídeos (5.457),
intimidades caseiras (5.216), correios
(4.725), celular (3.685), guia de ruas
(3.666), velhas virgens (925).
. É
verdade que não podemos encontrar
a pedra filosofal, mas é bom que
ela seja procurada; procurando-a,
descobrem-se muitos bons segredos
que se não procuravam -
Bernard de Bovier Fontenelle.
|
CATEGORIA CULTURA
Nosso Internético lê demais e procura
se instruir. Suas preferências:
contos eróticos (70.957) poesias
(30.143), dicionário (24.210),
lolitas (9.646), contos
(9.438), playboy (25.184), famosas
nuas (9.302), resumo de livros
(3.857), etc.
CATEGORIA EMPREGOS
concursos (28.027), empregos
(18.103), cifras (17.370), curriculum
(2.874), programas (3.211), banco
de esperma (1.944), etc.
CATEGORIA ESPORTE
futebol (5.634) e kama sutra
(2.573).
CATEGORIA INTERNET, SOFTWARES GRÁTIS, MÚSICAS
E IMAGENS
músicas (49.850), jogos
(48.008), papel de parede (33.587),
zipmail (24.411), letras de
músicas (23.620), games (16.630),
fliperama (14.246), gifs
(13.933), winzip (9.013), antivírus
(8.486), protecão de tela (5.892),
dreamcam (5.486), partituras
(3.499), linux (3.073), superdownloads
(3.057), superdotados (1.920)
e nus artísticos (1.890).
. Quem
quer matar a sede não procura entender
a fórmula da água. - Fernando
E. Tavares
| CATEGORIA MACHÃO
tatuagem (12.722), gostosas
(6.726), hacker (5.686), musculação
(3.728).
CATEGORIA MEIO-AMBIENTE
morango (5.986), reciclagem
(5.791), meio ambiente (5.292),
animais (5.256), efeito estufa
(4.446), poluição (4.011), água
(3.606), chuva ácida (2.820), etc.
CATEGORIA POLÍTICA & COMÉRCIO
alca (10.335), globalizacao
(7.998), vídeos eróticos (5.677),
mercosul (4.600), lula (3.974),
ditadura militar (2.660), troca-troca
(1.044).
CATEGORIA PREVISÕES
DO FUTURO E DO TEMPO
horóscopo (39.776), loterias
(17.045), previsão do tempo (16.153),
astrologia (10.052), mega sena
(6.608), simpatias (4.780), numerologia
(3.611), umbanda (2.608), conquistas
amorosas (1.018), etc.
CATEGORIA SAÚDE
drogas (9.565), dengue
(8.885), babado (7.550), aids
(7.384), gravidez (5.573), saúde
(4.773), ministerio da saúde (2.747),
ejaculação precoce (2.701), etc.
CATEGORIA DE TERMOS NÃO IDENTIFICADOS
kazaa (18.057), hentai
(12.115), syang (8.339), viviane
araujo (3.907) e buttman (2.601).
CATEGORIA VESTIBULARES,
ESCOLAS E ESTUDOS
física (8.170), biologia
(7.846), fuvest (7.794), proclamação
da república (7.732), geografia
(7.715), química (7.597), matemática
(7.461), vestibular (5.970), educação
(5.869), fotos amadoras (5.487),
usp (5.299), história (4.911),
unicamp (3.840), universidades
(3.468) e pissiricologia (991).
. Não
é difícil deduzir que o marketing
destas corporações financeiras,
sempre em expansão e querendo
atrelar cada vez mais todas as
atenções, logo estará adotando
campanhas maciças do tipo Sexo
na Caixa, Bradesco Garanhão
ou mesmo Precisando de dinheiro?
Então vá tomar no Itaú, monopolizando a
Internet (com 98% de interessados).
| CATEGORIA
AMOR
Só 2 buscas freqüentes: a própria
palavra amor (6.869) e carlos
drummond de andrade (9.688).
|
| QUALIDADE REAL |
QUANTO CUSTA?
Luís
Renato Vieira
Diretor da empresa Qualidadereal Cons.
e Assessoria S/C Ltda.
Empresa especializada em implantação de
sistemas da qualidade e gestão ambiental.
qualidadereal@ig.com.br
Administrar o consumo de água e do
saneamento urbano será o grande problema do mundo no século
XXI. A água será a mais importante commodity do futuro
século. Prover a população de água e saneamento básico
requer investimentos altíssimos e paises como o Brasil
sofrerão mais que países mais ricos, mesmo sendo o Brasil
possuidor da maior reserva hidrológica do mundo, cerca de
14% de toda água doce do planeta. Antes de desperdiçarmos
água vamos analisar o quadro abaixo: · 1 litro de óleo
lubrificante é capaz de esgotar oxigênio de 1 milhão de
litros de água; · 1 Real a cada 1.000 litros é o valor da
água que consumimos; · O consumo de água por pessoa vária
de 150 a 400 litros por dia; · Um buraco de 2 mm no cano
desperdiça por dia 3.200 litros de água tratada, o
suficiente para consumo por 5 dias de uma família de 4
pessoas; · Fazer a barba e escovar os dentes em 10
minutos com a torneira aberta gasta 24 litros de água de por
dia, o suficiente para uma pessoa beber por 12 dias; · A
válvula de descarga, quando acionada, gasta de 10 a 30
litros de água. A substituição da válvula de descarga por
uma caixa acoplada reduz o consumo para 6 litros; · Se 16
milhões de pessoas deixarem de usar a descarga uma vez por
dia, serão economizados cerca de 160 milhões de litros; ·
Uma torneira pingando gasta 46 litros de água por dia,
quantidade que mata a sede de uma pessoa por 20 dias; ·
Lavar a louça durante 15 minutos gasta 243 litros de água.
Já a lavadora de louça gasta 40 litros; · O desperdício
de 2.800 litros de águas por dia é suficiente para atender 6
pacientes/dia num hospital com lavanderia e cozinha; · Em
todo mundo, a irrigação das terras de cultivo responde por
73% do consumo de água, as industrias por 21% e os 6%
restantes destinam-se ao uso doméstico; · Ao pouparmos
energia elétrica, também poupamos água, já que a maior fonte
de energia que utilizamos é gerada em usinas
hidrelétricas;
· 90% da água da terra que podemos beber
vêm do subsolo em constante risco de contaminação.
Fonte: Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos
Hídricos e da Amazônia Legal - MMA
Dos 113 milhões de pessoas que vivem no Brasil
urbano: · 75 milhões não possuem esgoto sanitário; ·
20 milhões não possuem água encanada; · 60 milhões não
possuem coleta de lixo; · 3% do lixo coletado têm
disposição final adequada; · 63% do lixo são lançados em
cursos d'água;
· 34% lançados a céu aberto.
Fonte: Associação Interamericana
de engenharia Sanitária Ambiental.
Leia outros artigos sobre
Qualidade no site do Especialista:
http://www.milenio.com.br/qualidadereal
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E-MAILS RECEBIDOS |
Gostaria de sugerir, que aumente o
tamanho das fontes dos textos da revista.
Profº Osvaldo.
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Coluna
do Pimpão |

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DIÁRIO DE
OBRA Dos 5.347 Diários de Obra que
pacientemente elaboramos, 5.100 não foram lidos (1.279
estavam mesmo marretados, 1.434 foram entregues fora
do prazo e muitos foram extraviados). Nenhum deles
serviu de argumento para prorrogar os prazos da
obra, nem como boletim oficial do tempo. Uns 800
foram imaginados 2 meses após ter a obra iniciada.
Outros 1.200 foram inventados pelos apontadores incumbidos
das informações. Os diários de obras são invenções de
historiadores frustrados que, não conseguindo passar no
vestibular, acabaram virando engenheiros e, juntos com os
relatórios fotográficos, são o que de menos
inteligente se faz sistematicamente nas
obras. Passam-se por peças chaves do acompanhamento e
controle da produção porém não têm nada de
acompanhamento, muito menos de controle
e sequer melhoram a produção.
Sempre em 2 a 3 vias
todos eles, entretanto, encontram-se
ainda nos arquivos mortos das construtoras
e dos clientes esperando ser
útil para alguma coisa, algum dia.
|
| Coluna
do Borduna |
|

No próximo Número
tem Maracutaia. Envie o seu artigo, mesmo contrário
a ela.
|
PAPO FURADO
Sem esta de que obra é um "desafio". Fazer
obra é um trabalho como outro qualquer, como o dos
amanuenses, das carpideiras ou dos jogadores de
porrinha profissionais, só que mais fácil.
CONVERSA PREPOTENTE
Mesmo com a pequena disponibilidade
de vagas no Mercado de Trabalho,
ao deparar com a frase "Precisa-se de
engenheiro disposto a enfrentar grandes desafios!"
fique atento. Pode ser uma
preparação para um serviço com horário
extremamente dilatado, puxação-de-saco
incomum ou outro cinismo qualquer. Esses
"empregos" costumam não ser lá grandes
coisas, e vencido o tal "desafio"
não haverá nenhum troféu a
ganhar.
Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura, jamás.
- Ernesto Che Guevara.
| |
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ÉTICA E EDUCAÇÃO |
EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE
DO CONHECIMENTO
Engº Paulo Sertek
Engenheiro
Mecânico, Licenciado em Mecânica e Especialista em Gestão de
Tecnologia e Desenvolvimento Professor de Cursos de
Pós-Graduação em Ética nas Organizações e
Liderança Pesquisador em Gestão de Mudanças e
Comportamento Ético nas Organizações Assessor empresarial
para desenvolvimento organizacional
psertek@xmail.com.br
Estamos
presenciando transformações muito grandes neste século.
Nossa sociedade está marcada atualmente por um grande
desenvolvimento na área das comunicações. A internet nos faz
ter informações e serviços com uma grande agilidade.
Dispomos de informação em grande quantidade e vai se
tornando cada vez mais necessário saber selecionar a
informação de qualidade. Precisamos saber navegar bem dentro
deste mar informativo.
Não podemos confundir
capacidade de acessar mais informação por unidade de tempo
com qualidade de conhecimento. O conhecimento realiza-se
através de uma atividade interiorizada. É uma capacidade de
conectar informações, abstrair critérios, elaborar
conceitos. Conhecimento é um saber assimilado. O aprendizado
exige um bom "estômago mental" para digerir e assimilar
vitalmente os conhecimentos. Possuir mais dados ou tê-los
mais rapidamente não implica necessariamente em conhecer
mais e melhor. Conhecer melhor implica em conhecer o certo,
o verdadeiro.
Um estudante hoje tem acesso pela
internet a uma quantidade de informação milhares de vezes
maior do que um catedrático dispunha há tempos atrás. O
problema educativo coloca-se em termos de capacidade de
assimilação da informação e capacidade de contato com o
real, abertura para entender a realidade tal como
é. Percebe-se com maior intensidade a influência do
intermediário para nos mostrar a realidade. Tornou-se cômodo
sentar em frente do televisor e observar a realidade pela
ótica da notícia. Qual é o problema que se apresenta?
Acabamos ficando cada vez mais longe da fonte de notícia ou
de informação; ficamos distantes dos fatos e da realidade.
Podemos ter uma visão "televisiva" ou "telematizada" da
realidade. Talvez estamos perdendo a iniciativa de dar "uma
volta por ai" e enxergar a realidade sem os filtros da
informação por vezes tendenciosa: temperada nos interesses e
nas ideologias dos seus propagadores.
Pensávamos há
tempos atrás que o fato de termos mais recursos tecnológicos
tornaria a qualidade de vida do homem melhor. Isto só tem
ocorrido no campo das satisfações de necessidades materiais.
Ajudou e muito a que a vida humana tivesse mais conforto. No
entanto o homem de hoje encontra-se mais necessitado do que
nunca. Olhamos para o lado e nos encontramos dentro de uma
forte crise de valores.
No campo
científico-tecnológico pode-se falar de progresso nos
conhecimentos e evolução. Acrescentamos algo mais aos
conhecimentos anteriores. Pelo contrário no campo moral ou
no campo dos valores éticos experimentamos uma grande
confusão. Experimentamos aquilo que o filósofo Alasdair
MacIntire denominou como a época do "after virtue" (depois
da virtude) onde depois de uma explosão devastadora dos
valores clássicos, hoje quando muito recolhemos os seus
fragmentos.
Por um lado alguns pensam que os valores
éticos são puramente convencionais; eu e você combinamos que
isto é bom e aquilo é ruim para podemos viver em paz!
Convencionalismo...Isto gera um problema sério! Aqueles que
não participaram da convenção estão obrigados a essas
regras? Como podemos analisar acontecimentos históricos e
fazer um juízo de valor? Como podemos exercer uma missão
educativa, sem estimular comportamentos que favoreçam a
vivência em sociedade? Será que é suficiente a ética do eu
não mato e eu não roubo e o resto vale tudo, tendo em conta
os seus frutos?
Mesmo tendo Hitler conseguido
legitimidade democrática às suas ações, elas foram, são e
serão sempre contrárias aos direitos que decorrem da
natureza humana. Estes direitos estão acima de qualquer
decisão "democrática"! O Estado democrático para
preservar-se deve tutelar os direitos fundamentais da pessoa
humana. Torna-se necessário fundamentar a ética em valores
que não mudam: tais como o da imparcialidade, veracidade e
justiça, o querer positivamente o bem dos outros como se
quer o próprio bem, etc.
A globalização das relações
entre países tem colocado o problema a fundo. Cada vez mais
nos relacionamos com culturas diferentes da nossa. Temos que
compartilhar valores que têm em comum o fato de sermos
humanos, independentemente do estado de humor das
autoridades de plantão. Os valores não podem ser
instrumentos utilitaristas.
Entendemos que um
aparelho só funciona bem se é operado de acordo com as leis
do seu bom funcionamento, decorrentes do próprio projeto:
por ex.: não ligar em 440 Volts, operar desta e daquela
forma, tomar estes ou aqueles cuidados. Tudo pelo melhor
rendimento do equipamento. A partir desta comparação seria
lógico estimular aquelas atitudes que fazem com que o homem
dê certo como homem e evitar aquelas que o desestruturam
existencialmente. Há ações que elevam o homem, outras que o
corrompem. Temos de saber prezar os valores morais e
ensinar a incorporá-los na própria vida. Estes valores na
medida que se transformam em realidades vividas dirigem as
pessoas à felicidade e a uma realização plena de
sentido.
O professor está sendo cada vez mais
solicitado a exercer a sua missão de mestre, é chamado a
resgatar sua condição de educador. A educação dirige-se a
três aspectos que andam juntos, mas aqui os apreciamos de
forma separada: aprimorar conhecimentos, desenvolver
aptidões e promover valores. Victor Garcia Hoz no livro
"Pedagogia Visível - Educação Invisível" nos esclarece com
precisão: "A pedagogia visível e a organização de atividades
estão apoiadas no contexto cultural e social da comunidade
na qual se vive, enquanto a educação invisível tem uma
referência mais imediata na personalidade do estudante e do
professor. A pedagogia visível apoia-se principalmente nas
áreas verbal e numérica, porque a palavra e o número são as
expressões adequadas do pensamento científico, isto é do
pensamento mais sistemático e claramente entendido; a
educação invisível realiza-se principalmente nas áreas não
verbais da comunicação humana, na atitude e comportamento
pessoal, no tom da voz, nos gestos, na atividade como meio
de expressão de uma pessoa".
"A pedagogia visível
costuma dar maior importância ao conhecimento e à aquisição
de destrezas, práticas ou mentais, enquanto a educação
invisível está mais perto das atitudes, da iniciativa, das
aspirações pessoais, dos valores".
Penso que pode
traduzir melhor o que anteriormente dissemos o que
encontramos num artigo que quatro professores publicaram em
conjunto no Le Monde (Paris, 2.04.93): "A escola deve
atrever-se a educar, isto é, de maneira mais precisa,
atrever-se simultaneamente instruir e a despertar a
consciência moral, atrever-se a ensinar as regras da vida
comum e atrever-se a formar. Os que pretendem que a escola
já não deva educar, os que querem que a escola do amanhã não
tenha mais razão de ser que a instrução, ou que sua única
utilidade seja a formação, são ingênuos aprendizes de bruxos
que não se dão conta do tipo de sociedade que preparam aos
seus próprios filhos. Não há homens instruídos ou
engenheiros eficazes que, sem dúvida, praticam a
auto-suficiência, o cinismo, o desprezo -o ódio em
definitivo- para com os outros? Como uma boa instrução ou
uma excelente formação pode substituir uma sólida
educação? Os saberes e as técnicas não podem bastar para
construir a coesão social. O sentido moral, a adesão aos
valores compartilhados e as qualidades do coração são tão
necessárias como a razão para refazer sem cessar, geração
após geração, uma geração solidária e fraternal. Agora que
parece triunfar a empolgação por uma possível e legítima
satisfação imediata dos desejos, não é o momento de que a
escola renuncie ensinar a necessidade de discordar, e em
particular de afastar a violência, a fim de fundar as
relações humanas no respeito mútuo e no desejo de
compreensão recíproca. Sobretudo, agora que progride a
exclusão em um contexto de crise econômica, agora que a
integração cultural das sucessivas ondas de imigração parece
esgotar-se, agora que as estruturas de socialização parecem
desmoronar-se, não é o momento de que a escola renuncie
educar. Para consegui-lo, deve apoiar-se em professores
que reivindiquem plenamente sua condição de mestres, isto é,
de educadores. A educação nacional dispõe agora de um
instrumento comum de formação de todos os professores, os
institutos universitários de formação de mestres. Nesta
missão essencial, estes novos centros de formação não
sofrem, a nosso juízo, de um excesso de unidade, como as
vezes se tem dito, mas sobretudo de uma insuficiente
unidade".
Penso que a preparação de pessoas para a
sociedade do conhecimento exige uma reflexão séria em termos
de uma educação mais aberta em contato com a realidade
tangível. Combater fortemente a passividade. Não admitir a
conversão das pessoas em elementos de uma sociedade de
espectadores. Trata-se de desenvolver as qualidades básicas
para uma atuação efetiva na sociedade.
Atitudes
abertas de modo a crescer na capacidade de refletir sobre a
realidade. Condição necessária para não ser um repetidor
informativo. Criar as condições formativas que levem ao bom
hábito de pensar e saber com os elementos essenciais
reconstruir o conhecimento. Procurar adequar o
desenvolvimento dos conteúdos dando ênfase ao saber operar
com os conceitos.
Esta tarefa exige dos educadores,
diretores de escola uma postura para a melhoria de qualidade
não só técnica ou científica mas ao mesmo tempo promover
eficazmente uma convivência humana adequada à transmissão de
valores. Faz-se necessária a configuração de um sistema de
conscientização e aperfeiçoamento dos protagonistas do
processo educativo para ser difusores de critérios éticos
através do exemplo de suas qualidades pessoais e da
conveniente difusão destes valores.
Pode nos dar
algumas referências um estudo sobre a educação na Espanha,
para uma reflexão sobre a nossa realidade: "A Fundación
Encuentro realizou o informe Espanha 1996 dedicado à
realidade social espanhola, publicado recentemente, onde
reúne dados sobre a situação do ensino. O mal estar dos
professores por causa da reforma educativa, a improvisação e
contradições dos pais na educação dos filhos, a divisão de
papéis entre pai e mãe, e a dinâmica prêmio-punição são
alguns aspectos a se destacar. As conclusões provêm das
pesquisas entre professores de ensino público e privado, e
pais com filhos em idade escolar. Uma primeira conclusão
é que os professores não estão satisfeitos. A incerteza de
emprego que gera a reforma educativa e a variedade de papéis
que têm que desempenhar (psicólogo ou pai substituto)
provocam desinteresse e desmotivação. Cada vez são mais os
professores que reclamam a consideração de mero instrutor ou
especialista em determinadas matérias, e renunciam ao papel
mais vocacional de educador. Isto contrasta com valoração
positiva que os pais fazem dos professores. A característica
que mais destacam é sua preparação acadêmica. Sem dúvida
esta opinião favorável chega ao professor em poucas
ocasiões. Pais e professores coincidem em aspectos
básicos da educação: confiança, motivação, entrosamento,
valores e ideais. A imensa maioria está de acordo com a
frase "o que mais ajuda na educação é procurar a confiança e
a amizade dos filhos ou dos alunos". Sem dúvida, uns e
outros educam de maneira distinta. A educação dada pelos
pelos professores está planejada e se sustenta na informação
e no rendimento. Enquanto que a dos pais, com um componente
afetivo e protetor maior, improvisa-se mais. Devido a esta
falta de planejamento, os pais apenas insistem em atitudes
como auto-disciplina, esforço, paciência, assimilar os
êxitos e fracassos, etc. Cada vez mais, os pais querem
comprometer-se na educação dos filhos. Mas com freqüência
não sabem como; daí algumas contradições detectadas nas
pesquisas: critica-se a competitividade mas se educa para
ela; censura-se o consumismo mas se dá tudo ao filho; a
televisão é prejudicial mas todos as assistimos muito; ou
ainda o futuro se antevê como difícil mas não se educa no
esforço. Os pais partem do suposto "tudo o que se
investir em educação é bom". A Fundação interpreta que, para
os pais espanhóis, educar é dar: para que não falte nada ao
filho (medo do futuro); para que tenha o que eu não tive
(compensação); para que se compita em igualdade com os
outros (expectativas sociais), etc. Outra tendência é a
maior simetria do pai e da mãe na educação. Cada vez é mais
frequente que a mãe trabalhe fora de casa. O que está
originando a divisão de papéis na organização da casa e na
educação dos filhos, especialmente nas famílias mais jovens.
Recupera-se o papel do pai já desde a criação dos filhos e
surge um tipo de varão que aprendeu a não reprimir suas
expressões de ternura. Não obstante, o peso da educação
segue gravitando em torno da mãe, inclusive quando trabalha
fora de casa. O que supõe um tipo de mãe sobrecarregada que
lhe resulte impossível chegar a tudo.
Um componente
muito estendido da educação, tanto entre pais como
professores, segue sendo a negociação prêmio-punição. Entre
os castigos destacam-se o não deixar sair e não assistir à
televisão. Com respeito aos prêmios, ocupam os primeiros
postos os presentes e as diversões. Os professores têm mais
dificuldades para reprimir a desobediência ou a
indisciplina. Afirmaram 90% (noventa porcento) que em alguma
ocasião não tomaram medidas para não enfrentar-se com a
direção ou com a inspeção, e 84% (oitenta e quatro porcento)
para não enfrentar-se com os pais.
A Fundação propõe
a conjunção entre pais e professores para eliminar
discrepâncias e complementarem-se na educação das crianças.
Um exemplo notório é o da valoração do comportamento dos
garotos. Os professores tendem a fazer responsáveis os pais
em tudo ou quase tudo que o menino é ou manifesta, inclusive
quando os resultados são positivos. Os pais culpam os
professores dos fracassos escolares dos filhos. Os
professores culpam os pais de permissividade, falta de
verdadeiro conhecimento do filho, tendência a disculpá-lo,
escassa preparação, desorientação, temor quando um problema
sai fora do normal, etc."
Recolhemos à seguir umas
conclusões de um estudo do organismo responsável pela
qualidade de ensino na Inglaterra "Office for Standard in
Education", estes podem dar-nos algumas linhas para
implementar um processo de melhoria nas atividades
educativas que desenvolvemos. Sem querer oferecer receitas
mágicas, os autores do trabalho indicam onze pontos de
capital importância para a busca da excelência: 1.
Liderança profissional do diretor: firmeza e resolução de
caráter, mas também capacidade de compartilhar
responsabilidades com membros escolhidos da equipe de
direção. 2. O professorado compartilha uma mesma visão e
objetivos, que levam à unidade de visão e uma prática
coerente. 3. Um entorno educativo, ordenado e agradável
para trabalhar. 4. Põe-se ênfase no aspecto acadêmico; o
tempo de aprendizagem é aproveitado ao máximo e se dirige
para atingir bons resultados. 5. Aprendizagem com
objetivos claros: os professores estão bem organizados e as
aulas bem estruturadas e por sua vez adaptadas às
necessidades dos alunos. 6. Há sempre expectativas altas,
tanto entre os alunos como entre os professores e os pais.
As aulas estimulam a inteligência dos alunos. 7.
Reforça-se o sentido positivo: a disciplina é clara e
razoável; reconhece-se publicamente o êxito acadêmico e o
bom comportamento. 8. Supervisionam-se os progressos
contínua e sistematicamente, não só de cada aluno, mas
também do colégio como um todo. 9. A união entre a
família e a escola estimula a colaboração dos pais na
aprendizagem de seus filhos. 10. O colégio é uma
organização educativa: os professores e os dirigentes
continuam sendo aprendizes, atualizam suas matérias e adotam
os métodos que melhoram a compreensão por parte dos
alunos.
11. Sobre os direitos e responsabilidades:
os alunos têm um papel ativo na vida escolar
e compartilham a responsabilidade de sua
própria aprendizagem, o que aumenta a
confiança em si mesmos.
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PROBLEMAS AMBIENTAIS - V/V
Jornalista Vilmar
Berna Ambientalista de renome internacional
e único brasileiro homenageado pela ONU com o Prêmio
Global 500 Para o Meio Ambiente, no ano de
1999.
Fundador do Jornal do Meio Ambiente.
http://www.jornaldomeioambiente.com.br
18. Povo do aventureiro
O Povo do Aventureiro é uma comunidade
de caiçaras que vive há cerca de 200 anos na
Praia do Aventureiro, em plena Reserva Biológica
da Praia do Sul, no lado oceânico da Ilha Grande,
em Angra dos Reis, no litoral do Estado do Rio
de Janeiro, uma região de grande beleza natural,
que reúne, em cerca de 3.600 hectares, diversos
ecossistemas em excelente estado de preservação.
Conhecer sobre o Povo do Aventureiro é aprender
um pouco sobre a cultura caiçara, traço comum
que une centenas de comunidades hoje marginalizadas
e entregues à própria sorte. E mais. É também
conhecer sobre os ecossistemas que habitam,
verdadeiros paraísos de beleza natural. Seria
como viver num paraíso, não fossem os inúmeros
problemas que ameaçam os caiçaras do Aventureiro.
Vivendo quase sempre isolados, em regiões de
praias, florestas, lagoas, rios cristalinos,
sem infra-estrutura ou instrumentos de trabalho
sofisticados, os caiçaras tiveram de se adaptar
ao meio ambiente ao longo de sucessivas gerações.
Dessa adaptação resultou um conjunto de saberes
e um jeito próprio de lidar com os recursos
naturais que tem garantido a sua preservação.
A relação preservacionista que mantêm com a
natureza não vem de nenhuma consciência ecológica
tradicional, mas é uma exigência de preservação
da própria subsistência da comunidade. Sem luz
elétrica, não há geladeiras e portanto, não
há como fazer estoque de alimentos. A natureza
é a sua 'geladeira'. Quanto mais preservada
estiver, maior a garantia de alimentos no futuro.
Sua cultura caracteriza-se pela tradição e é
transmitida pela prática cotidiana e pela oralidade,
através dos rituais de festas religiosas, longas
'prosas', canções e cirandas. Assim vão perpetuando
o conhecimento sobre técnicas de pesca, caça
e agricultura, qual a melhor época de extrair
os recursos naturais, como construir moradias
e embarcações, o que se pode ou não comer, qual
a melhor maneira de consumir os alimentos, que
erva cura e qual mata, etc. Junto a esse conhecimento
sobre o dia-a-dia, também são transmitidos valores
morais, religiosos, estéticos, saberes que compõem
a Cultura Caiçara.
A Reserva Biológica da Praia do Sul, no lado
oceânico da Ilha Grande, no litoral do Estado
do Rio de Janeiro - Brasil, parece um pedaço
do paraíso. Num trecho relativamente pequeno,
cerca de 3.600 hectares, reúne-se o que há de
melhor, mais especial e preservado de cinco
ecossistemas diferentes: mata atlântica, restinga,
manguezal, lagunas e litoral rochoso, onde se
destacam duas lagoas de águas limpas e rios,
como o Capivari, que possui grau zero de poluição,
desde a nascente até a foz, um caso cada vez
mais raro hoje em dia.
Não é só a riqueza natural do lugar que impressiona,
mas também a importância histórica da Reserva.
Ali encontram-se sítios arqueológicos com mais
de 3.000 anos, com sambaquis e oficinas líticas,
onde os índios pré-históricos preparavam suas
lanças e ferramentas de caça e pesca. Curioso
foi os arqueólogos terem desenterrado um esqueleto
pré-histórico, de um indivíduo masculino, que
possuía um metro e oitenta de altura, o que
contraria a tese de que os índios eram baixinhos.
O Povo do Aventureiro já chegou a ter 150 famílias,
hoje reduzida para menos de 50, devido, em parte,
às restrições determinadas pela legislação ambiental
que criou a Reserva Biológica da Praia do Sul,
categoria mais restritiva de unidade de conservação
existente na legislação brasileira, onde nem
mesmo pesquisadores podem entrar sem permissão
especial, que dirá servir de moradia a pescadores
e agricultores, como os caiçaras. As leis ambientais
brasileiras são relativamente recentes, e ainda
estão em processo de amadurecimento. São leis
restritivas, mais voltadas para a preservação
da fauna e da flora. Hoje, a consciência ambiental
já avançou a ponto de considerar o ser humano
também como parte do ecossistema. Se antes a
presença humana na natureza era vista unicamente
como fator de agressão ambiental, hoje essa
presença pode significar fator de preservação,
como o caso dos caiçaras. É apenas questão de
tempo para que a legislação venha a incorporar
definitivamente essa mudança de conceito. Chico
Mendes contribuiu bastante para acelerar tal
processo. Sua luta deu origem a primeira unidade
de conservação, as Reservas Extrativistas, criada
para a preservação do ser humano não-indígena.
No Estado do Rio de Janeiro, a Lei 2.393 (20/04/95)
garante os direitos dos povos tradicionais viverem
nas unidades de conservação do Estado, desde
que já residam no local há mais de 50 anos e
mantenham relação de preservação com o ecossistema.
Já é um bom começo. Esta lei foi escrita pelo
autor e apresentada pelo Deputado Estadual Carlos
Minc (PT/RJ).
Antes da criação da Reserva, os caiçaras do
Aventureiro pescavam nas lagoas, sempre que
o mar 'engrossava' e impedia a saída dos barcos,
o que invariavelmente acontece e chega a durar,
às vezes, meses. Era nas lagoas que eles se
'safavam', segundo suas próprias palavras. Hoje,
essa pesca é proibida, assim como a caça de
subsistência e mesmo o desmatamento para plantio
de roça. Não se trata de um desmatamento em
grande escala, mas pequenos cortes e queimadas
no meio da floresta que, após a colheita de
três ou quatro safras é abandonada, permitindo
a recuperação total da floresta. Pesquisas científicas
realizadas no local comprovaram que a técnica
de 'agricultura de toco', ou coivara, não só
não destrói a floresta como contribui para o
aumento da biodiversidade. Em locais que se
imaginava ser de mata primária, os pesquisadores
encontraram no subsolo uma camada homogênea
de dez centímetros de carvão, o que demonstrou
que a área já havia sido uma antiga roça caiçara.
Outro fator que tem ameaçado a cultura caiçara
no Aventureiro é o verdadeira invasão de pessoas
de fora da comunidade, com cultura e hábitos
diferentes, nas épocas de feriados prolongados,
como carnaval, por exemplo. Embora proibido
pela legislação ambiental, os freqüentadores
sempre encontram um jeito de acampar nos quintais
ou se abrigarem nas próprias casas dos pescadores.
O Poder Público não dispõe de recursos para
impedir a 'invasão'. A questão é sobretuto conceitual.
À luz da legislação ambiental, esses invadores
são tão ilegais quanto os próprios caiçaras,
o que gera uma cumplicidade entre eles absolutamente
falsa e ilusória. Os caiçaras são atraídos pela
fonte extra de renda e inventam desculpas para
justificar a presença, como se fossem parentes
distantes em visita à comunidade. Por ser proibido,
essa ocupação não é planejada, como uma atividade
tradicional de turismo. Não há banheiros públicos
ou locais para lixo e o tipo de pessoa atraída
para tais condições de precariedade e ilegalidade
não são exatamente aquelas mais acostumadas
a respeitar limites e obedecer regras. São comuns
entre os caiçaras histórias de turistas tomando
banho nus, fumando maconha ou usando outros
tipos de drogas, fazendo sexo ao ar livre, etc.
Em épocas, como carnaval, por exemplo, já se
chegou a contar mais de 1.000 pessoas no Aventureiro,
um impacto relevante para uma comunidade que
não ultrapassa 150 pessoas.
Esse impacto também se dá sobre os recursos
naturais, já que é preciso alimentar uma população
adicional muito superior à usual, forçando os
caiçaras a pescarem além do normal e a lançarem
mão de seus estoques agrícolas, obrigando-os,
mais tarde, a terem de comprar o que antes tinham
no fundo do quintal, isso sem falar nas verdadeiras
montanhas de lixo, deixadas para trás. O impacto
sobre os jovens caiçaras também é considerável,
já que se recusam a aceitar a própria cultura,
envergonham-se de serem caiçaras, como se fosse
sinônimo de atraso, o que provoca uma pressão
extra sobre os recursos naturais, já que tendem
a acumular estoques para atingir o mesmo poder
de consumo que os 'turistas'.
19. Caça ecológica - Aberração ética
O principal argumento usado pelos caçadores,
auto-intitulados ecológicos, para matar suas
presas é a necessidade de evitar a superpopulação
de uma determinada espécie - naturalmente a
que vai ser caçada. Trata-se de um sofisma,
baseado numa meia verdade, É verdade que há
necessidade de se manter o controle das espécies
silvestres. A superpopulação provoca falta de
alimentos, doenças, desequilíbrios ecológicos
ou podem prejudicar não apenas um grupo ou outro
de indivíduos, mas todas a espécie. Entretanto
não é verdade que a melhor forma de se efetuar
esse controle populacional seja através da caça.
O equilíbrio ecológico numa cadeia alimentar
acontece naturalmente, primeiro, se houver vegetais,
gramínias e plantas em abundância, suficiente
para alimentar os seres primários, ou vegetarianos.
Estes seres, como cavalos, cervos, coelhos etc.,
fazem as funções de agricultores e jardineiros,
mantendo os vegetais sempre produtivos.
Os seres vegetais, por sua vez, podem aumentar
muito de número consumirem toda a vegetação,
o que provocaria a morte de todas por falta
de alimentos. A natureza, então, estabeleceu
seu próprio esquema de controle. Para isso existem
os animais carnívoros. Eles mantém as populações
de seres vegetarianos sempre num determinado
equilíbrio. Exemplo desses carnívoros são a
onça, a águia, cobras etc. Uma característica
importante desse equilíbrio natural é que o
número de indivíduos é proporcional entre si,
ou seja, existe muito mais vegetais que animais
vegetarianos, e muito mais animais vegetarianos
que animais carnívoros, formando um tipo de
pirâmide alimentar. Isso quer dizer que, ao
avistarmos uma onça num determinado ecossistema,
significa que naquele lugar existem muitos animais
vegetarianos e muitas plantas. A onça na verdade,
não é um ser isolado dentro daquele contexto,
mas uma componente de uma estrutura só, formada
por plantas, bichos vegetarianos, bichos carnívoros.
Quando os fazendeiros queimam as florestas para
plantar pastos para o gado, automaticamente
destróem as possibilidades de alimentos para
a onça. Com fome, este animal invadirá as fazendas.
A forma de se evitar o desequilibro é assegurar
a existência de ecossistemas do tamanho necessário
para suportar a existência dos animais silvestres.
Essa é a primeira providência se alguém quiser
mesmo manter os controles populacionais dos
animais naturais de uma determinada região onde
esteja havendo superpopulação.
A caça, chamada "ecológica" ou esportiva, não
passa de mais de um abuso de nossa espécie com
as outras do planeta. Um verdadeiro crime, no
caso muito mais grave que o cometido por caçadores
que fazem isso para comer ou explorar comercialmente.
Matar por esporte, primeiramente, não é esporte,
é selvajaria mesmo. Sadismo, para ser mais preciso.
O conflito que se estabelece não é entre caçadores
e ecologistas, mas entre seres humanos desprovidos
de qualquer ética ou sensibilidade com os outros
seres do planeta, como se fossem senhores absolutos
da vida, e nós seres humanos normais. Não se
trata, portanto, de uma afronta apenas aos seres
ditos "inferiores", mas à própria espécie humana,
envergonhando-nos e colocando-nos numa situação
de inferioridade ética e moral muito abaixo
de qualquer outro ser vivo do planeta.
Felizmente, ainda há tempo. Os caçadores podem
constitui-se em aliados importantes, caso pretendam
mesmo auxiliar os ecologistas a controlar as
superpopulações e contribuir na recuperação
do equilíbrio ecológico. Em vez de armas de
fogo, deveriam usar máquinas fotográficas, elaborar
mapas minuciosas sobre a ocorrência e número
de animais, a fim de se estabelecer um plano
de manejo do ecossistema, onde haja o mínimo
possível da interferência humana, o suficiente
da interferência humana, o suficiente para se
restabelecer o equilíbrio natural. Do ponto
de vista esportivo, vencedor seria aquele que
conseguisse identificar a melhor presa, fotografá-la,
mapear sua posição fazer um diagnóstico das
condições de sobrevivência e situação do seu
ecossistema, sem tocar na presa, e sem ser notado
por ela. E mais. Depois de tomada as medidas
de meneio e reequilibro natural, voltar, o mesmo
local e fotografar novamente a presa. De campeões
da morte, estas pessoas se tonariam campeões
da vida.
20. O nuclear de joelhos
O Japão vasa radioatividade, esconde da
população e pede perdão de joelhos. E se fosse
no Brasil? Como as autoridades reagiriam na
comunicação do acidente? E os hospitais, estariam
preparados para atender aos acidentados ou para
fazer exames de radioatividade?
Nos anos 50, a população de Tokaimura, cidade
Japonesa onde ocorreu um grave acidente nuclear,
envolvendo o setor de reprocessamento de urânio,
no último dia 30 de setembro, chegou a pensar
que tinha sorte de ser a sede da indústria nuclear
do Japão. Quase meio século depois, porém, as
pessoas perceberam o custo que tiveram que pagar
por isso. Hoje, a população de Tokaimura faz
filas nos hospitais para se submeterem a testes
de radiação. A população está furiosa com o
fato das autoridades terem demorado para dar
o alarme. "O acidente aconteceu do lado da casa
das pessoas e, mesmo assim, demorou muito até
que medidas de emergências fossem tomadas",
informou o morador Tomi Oshiro. A população
acredita que o Governo minimizou o perigo para
não causar pânico, segundo noticiou o Jornal
O Globo de 03/09/99. Os técnicos japoneses foram
a público e se ajoelharam, literalmente, diante
de uma população atônita e pediram perdão pelos
erros cometidos, conforme mostrou a reportagem
da TV Record.
E no Brasil? Existem complexos nucleares não
só em Angra dos Reis, mas em Resende, também
no Rio de Janeiro, e ainda em São Paulo (Aramar),
Minas Gerais (Poços de Caldas), Bahia (Caitité),
Ceará (Itataia). Existem ainda mais de 2.500
fontes radioativas usadas em equipamentos de
uso medicinal, como o que provocou o acidente
de Goiânia, espalhadas em todo o território
nacional, milhares de aparelhos de uso industrial
para medição de soldas, fontes radioativas no
gás e petróleo extraído no Brasil (muito pouca
gente sabe disso), etc. O acidente do Japão
não poderia ocorrer no Brasil, já que aqui os
'containers' possuem uma dimensão geométrica
que impedem serem carregados com urânio além
da quantidade que ameacem a segurança. Mas imaginemos
um outro caso de um hipotético mas não improvável
acidente grave. Estarão os hospitais preparados
para atender a população vítima de radiação,
ou mesmo para atender aqueles que precisam fazer
exames para saber se foram contaminados? A resposta
todos já sabemos, é negativa. Seria um desastre
como, aliás, já foi em Goiânia. Não só os profissionais
médicos estão despreparados tecnicamente, como
os hospitais não dispõem dos meios para realizar
os testes de radioatividade e atender acidentados
e muito menos as prefeituras e Defesas Civil
estão preparadas para agir em casos como estes.
O Brasil sequer tem uma lei que trate adequadamente
dos resíduos radioativos!
E apesar disso, estamos assistindo Angra II
em processo de licenciamento para operar a partir
do ano que vem e Angra III a caminho, onde já
se gastaram 1,4 bilhões de dólares e ainda faltam
1,7 bilhões para concluir. E ainda tem a usina
de enriquecimento de urânio de Aramar que está
sendo transferida para Resende. Estarão incluídos
nestes custos os gastos com equipamento e capacitação
de médicos, hospitais, Defesa Civil, melhoria
de infra-estruturas de transporte e para informar
adequadamente e evacuar a população o caso de
acidentes? A resposta também é negativa. Durante
o VII CGEN (Congresso Geral de Energia Nuclear),
ocorrido em Belo Horizonte, de 1 a 3 de setembro,
o Prefeito de Angra dos Reis, Castilho, cobrou
duramente das autoridades nucleares maiores
investimentos no social e na reforma e manutenção
da Rio-Santos, principal rota de fuga no caso
de um acidente nuclear.
E a política de comunicação do Governo diante
de crise e acidentes nucleares? Nascido no berço
da didatura militar como um dos setores estratégicos
de segurança nacional, e com claras intenções
bélicas e armamentistas (quem não lembra da
pá de cal que o então Presidente Collor jogou
no poço de testes de uma futura bomba nuclear
brasileira?), a cultura do setor ainda parece
mais voltada para 'cautela para não evitar pânico',
que é o outro nome do 'nada a declarar', que
para políticas pró-ativas de comunicação, como
exige uma sociedade democrática. A quem cabe
informar à população no caso de acidente nuclear?
Aos próprios técnicos e autoridades do setor.
Até que eles decidam entre o que é 'incidente'
e 'acidente', quem sabe o que pode acontecer?
Para o Greenpeace, o acidente no Japão é mais
um indicador de que a recente decisão do governo
brasileiro de concluir as obras de Angra II
é um erro. A entidade ambientalista lembra que
esta é uma tecnologia cara e perigosa e um acidente
nuclear teria conseqüências desastrosas para
o meio ambiente e para a população. "Não adianta
dizer que os padrões de segurança estão sendo
cumpridos, porque falhas humanas acontecem",
diz Ruy de Goes da Campanha de Energia Nuclear
do Greenpeace Brasil.
Sem dúvida que os ecologistas são sensíveis
à necessidade de produção de energia para se
garantir o crescimento econômico (leia-se geração
de empregos e renda) e a qualidade de vida da
população. É preciso que o país invista em novas
fontes de energia para evitarmos o que ocorreu
em 11 de março deste ano, quando as Regiões
Sul, Sudeste e parte da Centro Oeste do país
foram vítimas do maior blecaute ocorrido no
Brasil. Entretanto, fico imaginando se, em vez
de investir 3,1 bilhões de dólares (mais de
6 bilhões de reais) para fazer mais uma usina
nuclear, o Brasil estivesse investindo em pesquisa
e implantação de usinas de energia eólica, solar
e de biomassa, num país de ventos constantes
e fortes como no Ceará (Fortaleza), Rio grande
do Sul (ao longo do litoral junto à Lagoa dos
Patos) e Rio de Janeiro (região de Cabo Frio),
de sol o ano todo e com uma produção de biomassa
seis vezes maior que os países do chamado Primeiro
Mundo. Diante de um quadro como este, investir
em mais e mais hidrelétricas, em usinas a gás
que aumentam o efeito estufa e em energia nuclear,
a mim me parece no mínimo um contrasenso e um
desperdício. Entretanto, tenho consciência que
minhas 'certezas anti-nucleares' são apenas
tese, que ainda não foram debatidas com a sociedade
como deveria. Por isso, acho que a decisão sobre
Angra III deveria ser referendada num plebiscito
nacional, pois além de ecologista, considero-me
sobretudo um democrata.
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