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Biblioteca de assuntos gerais da Revista EngWhere


ORÇAMENTOS, PLANEJAMENTOS E CANTEIROS DE OBRAS
Ano 02 •  nº 15 • 24/12/2002

NESTA EDIÇÃO: RESENHA 2002
TRIBUTO AO PEÃO DE OBRA

Quando pobre come frango, um dos dois está doente.- Apparício Torelly

  CANTEIRO DE OBRA


O Sentimento de Peão de Obra

O sapo coaxa
o urubu voa
eu encarno
o Peão de Obra

Neste Natal a Revista EngWhere está completando sua 15ª Edição (1 única e isolada desistência de assinatura).
Com a dupla comemoração vimo-nos também com direito ao nosso papai-noel: uma resenha do que mais significativo se falou aqui sobre nossa predileta matéria; o valente, alegre, sofrido, puro, injustiçado, pacífico, forte (antes de tudo) e desbundante Peão de Obra.
Para a festa convocamos o leitor, mormente o pouco aprofundado, a experimentar com mais intensidade este fantástico convívio, ou, mais apropriadamente, assumir de vez o peão de obra que é. Irmanando-se, sentindo-se, e sendo mesmo um deles.
Querendo ou não - já que "quem muito evita", diz Guimarães Rosa, "se convive" - não é outra a condição do Engenheiro de Obra.
Uns gostam dos olhos, outros da meleca, assumamos com satisfação esta identidade. Se não é grande o mérito, abunda consolo: sendo o que somos seremos, e nos enxergaremos, muito mais competentes.
Mais que prazeroso é bastante cabido o compromisso, e dignificante a adoração.
Feliz Natal Peão.


civil  SEU AMIGO O PEÃO DE OBRA

Não venha com esta gabarolice que peões são como crianças grandes. Peão de obra não é criança e nem tão crescido assim. Está mais é para o sertanejo, de Euclides da Cunha, também construtor, é antes de tudo um forte. E pode ser, como aquele, bruto e meigo e, apesar da coragem, acreditar em assombração.
Mesmo subalimentado é alegre, cordial e respeitador, e sem dinheiro no bolso é bom companheiro, amigo e humilde. Se você, Engenheiro de Obra, é dos que não conseguem se compadecer ou se desvencilhar dos preconceitos contra os menos favorecidos pela sorte, errou na escolha da profissão.
Principalmente trate-o com respeito. Todo relacionamento exige isto. Se você o tratar como "bicho", ele responderá com sua única argumentação possível: portando-se como um bicho. Se o agradar, terá um amigo para todas as horas.
Ele chegou à obra cedo. Bem antes das 7 estava na fila do ponto. Trabalhou pesado e merece um almoço decente. Capriche em sua refeição. Não há nada que o irrite tanto quanto uma refeição inadequada. Descubra seus gostos. Lembre-se que não há obra bem tocada com o refeitório desagradando.
Ouça-o e oriente-se com suas críticas. Não há mais sinceras e precisas. Principalmente se direcionadas à sua própria administração. Mais que qualquer outro funcionário da empresa, estará ele sabendo sobre a produtividade da obra, que lhe é filtrada do próprio suor.
Os resultados da obra, aliás, não só dependem mas são méritos dele. Faça-o enxergar isto.
Impressione-o com camaradagens e humor. O elogio, como a nenhum outro indivíduo, cai-lhe como uma benção. Seja mesmo astucioso. Nesta relação de trabalho ele nunca irá perceber que entre os dois, quem mais precisa do outro é você.
Não o amedronte usando sua condição de chefe e nunca lhe dê ordens diretas, atravessando seu organograma.
Saiba que a firmeza, a liderança, o humor e o caráter do chefe da obra, estão entre as notícias que mais se espalham, e sempre em manchete nas rádios-peões.
Não se faça de ocupado para impressioná-lo. Retribua-lhe seus bons-dias. Afinal você está em campo, num local de trabalho arejado, de respeito e educação, e não em um mofado escritório na Avenida Paulista.
O trabalho é pesado, mas não lhe negue. Não há mais impróprio lugar para rixas e picuinhas que em uma obra. Se quer ser admirado, não aceite bajuladores em sua sala.
Preocupe-se em dar-lhe condições seguras de trabalho e cientificar-lhe disto.
Jamais tenha medo do peão, até porque ele não é de briga e não morde. Além de ofendê-lo gravemente, você perderá sua autoridade e respeito, e o insucesso da obra, e o seu, serão iminentes.
Sobretudo goste do peão. Ele é parte significativa de seu ofício e faz por merecer. Sua companhia é agradabilíssima, seu humor irresistível e está dispondo-se, em troca de algum reconhecimento pelo seu trabalho, a admirá-lo.

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  O A-B-C DO RECÉM FORMADO

• AVISO BREVE
Nome que o peão geralmente dá ao Aviso Prévio. Chegou a hora da porca beber água e você demonstrar ser mesmo o Francisco de Assis que vinha apregoando. Sempre que possível evite que o peão perca seus direitos e faça com que o pedido de dispensa seja iniciativa sua, principalmente em finais de obras. A máxima "aos amigos tudo, aos inimigos justiça" é de extrema eficiência para se formar equipe duradoura.

• CACHIMBO
O cachimbo a que nos referimos é o oficial (carpinteiro, pedreiro ou armador) que acumula suas funções com a de líder de uma pequena turma. Aspira tornar-se feitor (ou encarregado, a nomenclatura varia com a obra) e proporciona grande economia já que, além de produzir mais que a média, evita a contratação de um Chefe de Turma cujas funções se restringem às de coordenação. Um plano de promoção e salário deve ser pensado e concretizado para estes funcionários, juntamente com os meia-colheres.

• IDADE AVANÇADA
Assim como os engenheiros, o peão de obra com mais de 50 anos trabalha e produz mais que a molecada, além de errar menos e ser menos problemático.
Alguns apenas falam um pouco mais do que deveriam.

• JUSTA CAUSA (DEMISSÃO)
Lei criada na Inquisição que consiste em penalizar o assalariado que comete uma falta considerada grave com a supressão de seus direitos trabalhistas. Na época foi tida como mais justa que fazer do desinfeliz alimento para os leões. Com a escravidão a lei foi abrandada já que, embora também não se pagasse salários, estes eram substituídos pelo fornecimento de casa, comida, roupa e plano de saúde, ou seja, um exagero para os dias atuais.
A lei perdeu, pois, o sentido prático, e como os leões também caíram de moda para resolver estas pendengas, o preferível mesmo é ignorá-la.

 • LIDERANÇA
Ser líder é principalmente ser bom. Em segundo plano ser justo ou sábio. Hitler e Salomão, se é que não maculamos o nome deste com a má companhia, não seriam grandes tocadores de obra. Os carrascos, que se julgam um sucesso, por não enxergarem a realidade da obra e pela falta de empatia, angariam nojo e revolta, os opostos da produtividade.

• MÃO DE OBRA LOCAL
Caso você esteja adotando troca de turno, ou trabalho em horários extraordinários, dê preferência à mão de obra local, para reduzir complicações de logística. Caso sua obra não adote troca de turno ou horas extraordinárias, dê preferência ainda à mão de obra local, para redução de custos com deslocamentos, alojamentos, e outros.

• MÃO DE OBRA TEMPORÁRIA
Fala-se demais sobre a inviabilidade em se contratar mão de obra temporária sob alegação que o funcionário que não pertence ao quadro efetivo da Empresa é mais propenso a desordens, ou menos afeito ao trabalho. Realmente isto assim acontece, porém só em obras desorganizadas, onde quanto mais gente, terceirizada ou não, menor é a produção.

• MEIA-COLHER
Trata-se do Ajudante de Pedreiro, com pouca experiência, como já foi o caso de nós todos, que aspira tornar-se Oficial Pedreiro. Com pouco tempo de obra alguns já estarão produzindo tanto quanto os oficiais, embora com menor salário, e não poderão ficar de fora de seu plano de promoção referido acima. Para poder participar do plano, entretanto, deverão ser-lhes estabelecidas condições quanto ao desperdício de materiais e mão de obra. Não basta executar bem, é necessário errar pouco. (V. tb. CACHIMBO).

• TAREFAS
A adoção de tarefas durante longos períodos faz com que o operário, evidentemente, se acomode com elas. As tarefas, outrossim, parecem prestar-se mais é para a chefia sentir-se poderosa, distribuindo-as a torto e a direito. Depois de algum tempo a obra só irá trabalhar mediante uma tarefa prometida e alguns a exigirão até para ir beber água.

  NOSSOS LEITORES

PRÓXIMO NÚMERO
31/01/03
Nova Teoria de Produção e Canteiro de Obra
Ética
Meio Ambiente
Gestão Empresarial


Revista EngWhere
Por dentro da obra



 (FEV/2002):
  • Lendo a Revista EngWhere 04, senti a dignificação do personagem de "Ben Hur", em que autoconsciência e fé, resguardados pela humildade e denodo no cumprimento do dever, valorizam nossas origens, quando participamos de tarefas tão dignificantes, que é a convivência de trabalho do Engenheiro e o Peão. Sempre numa tarde de um dia suarento, era comum ao cruzarmos com Peão, ver seu sorriso pelo dever cumprido, caldeando sentimento de uma vaidade simples com saudades de onde veio. A leitura da Revista EngWhere reviveu carinhosamente um pouco de minha vida. (O gosto e apreço que o cupim tem por tábuas de pinus ou similar, é notório.)
      Eneber C. Carvalhaes
      Engenheiro Civil (Autônomo)
      Belo Horizonte - MG.
  •   Coluna do Pimpão
    Engenheiro_Civil

  • RESPONSABILIDADE
    A Responsabilidade é característica pessoal e não do cargo. Existem mesmo vigias noturnos que não dormem em serviço, cumprindo preocupada e rigorosamente suas funções. Assim como existem os chefes que, enquanto o circo pega fogo, cochilam sobre a barriga, mesmo durante o dia, e principalmente se o sol estiver quente.

  • URUBUS
    Saque rápido sua calculadora e faça a conta em voz alta. Conte nos céus os urubus que sobrevoam o bezerro morto: são 80 urubus para 40 quilos de carne (os ossos estão fora). Cada urubu se abastece com 250 gramas de carne por hora, logo, em 2 horas o bezerro acaba. Os peões irão confundi-lo com Malba Tahan (pseudônimo do matemático e escritor carioca Júlio César de Melo, 1895-1974, formado pela Escola Nacional de Engenharia).

  • Coluna do Borduna


    construcao civil

  • MESTRE DE OBRA
    Figura chave em seu ofício. Antes de entrar em disputa de conhecimento com o Mestre, procure aprender com ele. Será seu maior professor e sabe das coisas. Não teve escola, porém o que ele sabe, seu curso também não ministrou. Tenha como meta saber mais do que ele, para só então considerar-se um Tocador de Obra. Lembre-se que a voz do povo, que não falha, diz que a experiência vale mais que a ciência. Fique também sabendo que o Mestre é líder nato, arrojado, de iniciativa, e vencedor consumado já que em seu peculiaríssimo vestibular, frente a uma multidão de concorrentes, lhe foi imposta a cláusula sine qua non de ser o primeiro da turma. Desconverse sobre perguntas como Quem sabe mais o Engenheiro ou o Mestre? ou então, tenha uma boa resposta e que agrade a todos, como: cada macaco no seu galho.

  • PICADINHO
    Não deixe o cantineiro servir picadinho nas refeições, que você irá se passar por afrescalhado ou pão-duro. Os peões gostam mesmo é do picadão, se possível de carne de pescoço. O inconveniente é que você terá que comer o mesmo que eles.

  • HISTÓRIAS DA ENGENHARIA QUE NINGUÉM CONTA

    O sertanejo maranhense, castigado com a falta de chuvas, rijo, mais que gente, como um babaçu, e confundindo-se com o babaçu (enganam-se os que pensam serem palmeiras o que tem em sua terra), admirava a Linha de Transmissão rasgando seu Estado. Quem sabe, agora, tudo não se resolveria?
      SEGURANÇA DO TRABALHO

    MEDIDAS PROFILÁTICAS DE HIGIENE E SAÚDE

    • Em todos os locais de trabalho haverá água potável, não sendo permitido o uso de copo coletivo;
    • Os locais de trabalho e alojamentos serão mantidos higienicamente limpos e arrumados. Serão distribuídos vasilhames com tampa para recolhimento do lixo e detritos em geral;
    • O refeitório será dimensionado de forma que todos os funcionários possam tomar suas refeições assentados, à mesa.

    Proposta Técnica: a Proponente defende a posição que Segurança do Trabalho é colocada como prioritária e inerente ao seu sistema de trabalho.

    MEIO AMBIENTE


    A última palavra (do Ecologista)

    Ainda segundo a ONU, existem no planeta cerca de 1,1 bilhão de pessoas vivendo em absoluta pobreza, 1 bilhão de analfabetos e cerca de 13,5 milhões de crianças com menos de cinco anos que morrem de fome a cada ano. Dados como esses levaram a Conferência Mundial Sobre População e Desenvolvimento, realizada em setembro de 1994, no Cairo, Egito, a definir um programa para o controle da população mundial nos próximos 20 anos, como se o maior perigo para o planeta fosse a explosão demográfica nos países pobres. Mas e os países ricos? Quando serão obrigados a rever seu modelo predatório e socialmente injusto de desenvolvimento, baseado em lucros crescentes, que coloca um fardo ecológico excessivo sobre países pobres e em desenvolvimento, reduzidos à condição de meros exportadores de matérias primas e em lixeira do ‘primeiro mundo’ desenvolvido?

    Jornalista Vilmar Berna

    O pão do pobre sempre cai com a manteiga pra baixo.
    Se todo dia eu perder um pedaço de mim, no fim do mês cadê eu? – Peão maranhense, em época de dificuldades, ganhando uma bicicleta no concurso de frases da CIPA.
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