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           Revista EngWhere - Por Dentro da Obra

ORÇAMENTOS, PLANEJAMENTOS E CANTEIROS DE OBRAS

Ano 03 . nº 16 . 01/02/2003
NESTA EDIÇÃO:
. Nova Teoria de Administração de Obra
Novo Parceiro em Qualidade:    . Cooperação como Fator Humano na Qualidade
Ética e Educação:   . Ética e Qualidade
Meio Ambiente:   . Problemas Ambientais

"...as atividades profissionais são, aqui, meros acidentes na vida dos indivíduos, ao oposto do que sucede entre outros povos, onde as próprias palavras que indicam semelhantes atividades podem adquirir acento quase religioso. Ainda hoje são raros, no Brasil, os médicos, advogados, engenheiros, jornalistas, professores, funcionários, que se limitem a ser homens de sua profissão." in Raízes do Brasil deSérgio Buarque de Holanda.

  OBRA DIGITAL



NOVÍSSIMA (MAS NEM TANTO) TEORIA DO DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL DA OBRA

Capa de Raízes do Brasil - Companhia das Letras
. INTRODUÇÃO
Nas edições anteriores introduzimo-nos na arte da convivência ou adoração ao peão de obra como uma técnica para melhorar a produtividade, as relações de trabalho e o próprio desempenho profissional. Estamos aptos, pois, a nos aprofundar de vez na matéria, dar uma sustentação científica ao tema, um cunho moral, e, de quebra, conhecer melhor a nós mesmos e ainda tentar, no final, conjeturar sobre o que nos reservaria o Futuro, agindo assim. Toda grande Teoria precisa mesmo destes ingredientes.
Para nos livrarmos dos dissabores que geralmente as idéias muito inovadoras acarretam aos seus criadores, e evitando incorrer no erro de, por exemplo Galileu Galilei, acusado de suspeita grave de heresia por não apresentá-las (as suas idéias) como resultado de um trabalho em equipe, buscamos o amparo e o estofo de um dos mais longevos homens da Nação, que viveu íntima e intensamente mais de 500 anos, ou desde antes do Descobrimento, e cuja luz com certeza não se apagará enquanto existir, nos moldes atuais, isso que chamam de civilização brasileira: o sociólogo, historiador e "pensador essencial", Sérgio Buarque de Holanda, pai do Chico - como garante (1) -  e extraímos de suas Raízes do Brasil as bases desta nossa arrojada Teoria.

Desde a Revolução Industrial (final do século XVIII) difundiu-se a organização nas fábricas, nas quais se persegue o aumento da produção para obter economias de escala, aplicando grandes quantidades de capital, trabalho e tecnologia. O sistema fabril permitiu a generalização da divisão do trabalho e sucessivas melhorias organizacionais. Durante mais de 150 anos essas melhorias traduziram-se em uma tamanha redução do custo por unidade produzida, que os salários reais subiram, os preços dos bens foram reduzidos e aumentou o consumo pela sociedade e, em conseqüência, o número de trabalhadores empregados. Taylor (a especialização das funções e padronização de procedimentos) e Ford (a produção em série) chegavam ao chão da fábrica. A linha de montagem introduzida por este último em sua fábrica, embora aumentando a produtividade, redundou em uma redução do trabalho e provocou tal monotonia, que para superar a dificuldade pagava a seus empregados o dobro do salário diário médio da indústria.

Pela diversidade do produto, estar submetida às mais diferentes variáveis, funções, gosto, localidade, transitoriedade, condições climáticas, acidentes de percurso, e às imprevisibilidades da natureza, das empresas, do indivíduo, etc., a impropriamente chamada Indústria da Construção Civil nada assimilou do desenvolvimento e melhorias organizacionais que privilegiou a Fábrica, e que cada vez mais se resguarda com métodos e normas que busquem a maximização do rendimento da mão-de-obra com base numa análise minuciosa de cada tarefa a ser executada.
A não ser nos raros casos de obras em que se emprega grande quantidade de pré-moldados de mesmo tamanho (mas ainda assim com altíssimos preços de transporte), nada se pensou em termos de "linha de produção".
Com exceção dos calorentos containers metálicos, ainda não se criou barracos para canteiros que permitam a utilização, após 2 ou 3 obras, com aproveitamento de pelo menos 50% do material e 15% da mão de obra.
A própria economia de escala é fictícia: o preço unitário, e tabelado, do cimento é o mesmo tanto para 8 quanto para 80 carretas adquiridas. O preço final da areia irá até aumentar caso a quantidade solicitada ultrapassar a capacidade de produção do porto mais próximo.
A verdade, em resumo, é que sem resolver sequer o suplício das perdas a Construção Civil está correndo atrás do rabo, engatinhando, e penando para entregar a obra no prazo combinado. O que, então, poderemos fazer?


. A REVOLUÇÃO DA CONSTRUÇÃO CIVIL BRASILEIRA

[Um negociante da Filadélfia manifestou certa vez a André Siegfried seu espanto ao verificar que, no Brasil como na Argentina, para conquistar um freguês tinha necessidade de fazer dele um amigo.] (pg. 149)

O que não tem solução solucionado está. Sem possibilidades de acompanhar, mesmo a curtos passos, o desenvolvimento organizacional que as teorias modernas proporcionaram à Indústria cabe à Construção Civil, e às obras em particular, desobrigar-se desta disputa, que lhe é desvantajosa, proceder imediato e honroso retorno ao ponto de partida - para além do Império ou para o tempo do Brasil colonial - e reiniciar, rejuvenescida, sua própria Revolução.
De inhapa poderá já ir deixando por lá desta vez o que disfarçadamente trouxera arraigados em seus seios ou acarrapatados em suas tetas: os governadores-gerais, as capitanias hereditárias, a derrama e a escravidão.

[Nas velhas corporações o mestre e seus aprendizes e jornaleiros formavam como uma só família, cujos membros se sujeitavam a uma hierarquia natural, mas que partilham das mesmas privações e confortos. Foi o moderno sistema industrial que, separando os empregadores e empregados nos processos de manufatura e diferenciando cada vez mais suas funções, suprimiu a atmosfera de intimidade que reinava entre uns e outros e estimulou os antagonismos de classe. O novo regime tornava mais fácil, além disso, ao capitalista, explorar o trabalho de seus empregados, a troco de salários ínfimos.] (pg. 142)

Eureca!  Mais clara do que nunca e mais óbvia que o modelo heliocêntrico que iniciou a Revolução Científica, a solução é, pois, tocar obra nos moldes da Manufatura Colonial, orientada para a fabricação de produtos de alta qualidade, destinados à venda na corte. A nossa proposta! (2)

[No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constantes das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal. Dentre estes círculos, foi sem dúvida o da família aquele que se exprimiu com mais força e desenvoltura em nossa sociedade. E um dos efeitos decisivos da supremacia incontestável, absorvente, do núcleo familiar - a esfera, por excelência dos chamados "contatos primários", dos laços de sangue e de coração - está em que as relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós.]

O artesão reassume a posição chave da obra, o carpinteiro cede seu lugar ao marceneiro, volta o pedreiro-faz-tudo. O Engenheiro desempolera de seu salto-alto, desfaz-se da figura triste de vedete, ou capataz, ou salvador da pátria, que vem assumindo, e retoma suas funções de orientador técnico-executivo da obra e irmão de todos.

[Quem compare, por exemplo, o regime de trabalho das velhas corporações e grêmios de artesãos com a "escravidão dos salários" nas usinas modernas tem um elemento precioso para o julgamento da inquietação social de nossos dias.]

Além disto, muitas outras vantagens sobejam o novo Método: É extinguida de vez a figura do babaca do chefe e desmoralizada a do déspota;
 . Reduz-se a prática das gambiarras;
 . Dá-se fim às parcerias, mormente nos lucros;
 . Dá-se um tempo mais para os inventores bolarem processos e soluções que realmente funcionem;
 . Desmilingúi-se o nepotismo e, por extenção, a puxação de saco;
 . Acaba-se com a corrupção (poderá ser instituída uma sonegação moderada como pré-requisito para ampliação e competitividade nas exportações);
 . A captação dos recursos, agora minimizados, deixará de ser um massacre à criatividade geral. (3)


. A SUSTENTAÇÃO: O ENGENHEIRO CORDIAL

[Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade - daremos ao mundo o "homem cordial".] (4)

O Engenheiro Brasileiro (Cordial)
[A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro... Seria engano supor que essas virtudes possam significar "boas maneiras. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante.
... A manifestação normal do respeito em outros povos tem aqui sua réplica, em regra geral, no desejo de estabelecer intimidade.]

O Engenheiro Japones (a polidez)
[Entre os japoneses, onde, como se sabe, a polidez envolve os aspectos mais ordinários do convívio social, chegando a ponto de confundir-se, por vezes, com a reverência religiosa.]

E depois:
[Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. Ela pode iludir na aparência - e isso se explica pelo fato de a atitude polida consistir precisamente em uma espécie de mímica deliberada de manifestações que são expontâneas no "homem cordial": é a forma natural e viva que se converteu em fórmula.]

Os demais
[O desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que raros estrangeiros chegam a penetrar com facilidade. E é tão característica, entre nós, essa maneira de ser, que não desaparece sequer nos tipos de atividade que devem alimentar-se normalmente da concorrência.]

Como se vê temos... estilo. E poucos o têm. Falta-nos, talvez, um pouco mais de união, e solidariedade à causa.


. PERSPECTIVAS E A CONCLUSÃO

[Além disto a polidez é, de algum modo, organização de defesa ante a sociedade. Detém-se na parte exterior, epidérmica do indivíduo, podendo mesmo servir, quando necessário, de peça de resistência. Eqüivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas emoções.]

E se a polidez como religião, ou maçonaria, chegou a chocalhar as estruturas econômicas dos EEUU, donos do Universo, nosso "engenheiro cordial", em seu momento oportuno será, desta vez definitiva e irresistivelmente, arrasador.
Tiraremos de letra! Mesmo sem contar com nossa capacidade de adoração ao peão de obra e temas como calor humano, improvisação, criatividade, tolerância, vibração e charme - naturalmente - que jamais possuirão também os branco azedos europeus de além-península, e muito menos os belicistas americanos que se sustentam acima de tudo na intolerância, na prepotência, no dinheiro, e no preconceito.

[No Maranhão, em 1735, queixava-se um governador de que não vivia a gente em comum, mas em particular, sendo a casa de cada habitante ou de cada régulo uma verdadeira república, porque tinha os ofícios que a compõem, como pedreiros, carpinteiros, barbeiros, sangrador, pescador, etc. Com pouca mudança, tal situação prolongou-se, aliás, até bem depois da Independência e sabemos que, durante a grande época do café na província do Rio de Janeiro, não faltou lavrador que se vangloriasse de só ter de comprar ferro, sal, pólvora e chumbo, pois o mais davam de sobra suas próprias terras.]

Tudo é questão de tempo. Já está traçada a direçäo e definidas as cabeças a que se destinam os louros desta irreversível vitória. Avante companheiro! (5)



1. Definia-se modestamente como sendo apenas o pai do Chico Buarque. A propósito, e a despeito da brincadeira, é de se indagar como que 2 gênios desta envergadura irão se despontar (gênios se despontam) debaixo de um mesmo e único teto. Nossa revista, que se prima por captar detalhes que poucos visualizariam, tem sua proposição: um grão-arcanjo, destes que trabalham escondidos, não estaria dando a força, um empurrãozinho, a luz? E escondido, pelo menos das revistas, das enciclopédias, nunca referido pela crítica ou pela intelectualidade, não estaria disfarçado ora como esposa de um, ora mãe do outro? Foge às intenções da matéria a dissertaçaõ sobre os anjos, discretos ou não, mas a  pergunta fica no ar. Ao som do Jesubambino.
2. Observar que nesta heurística o engenheiro se irmanar com o peão de obra antes que estranho, como poderia parecer ao desprevenido que leu a edição anterior, é algorítmo fundamental.
3. O que se deseja mesmo, no íntimo, é o calote disfarçado e com categoria (nunca o calote ostensivo, e menos o calote misericordioso) da dívida externa.
4. Buarque de Holanda, Sérgio (1902-1982), sociólogo, historiador, crítico literário e jornalista brasileiro. Nasceu e faleceu em São Paulo, SP. Ligado aos modernistas e louvado pela erudição, apresentou, em Raízes do Brasil (1936), um fundamental ensaio interpretativo sobre o Brasil. Nesta obra, que consagrou a expressão homem cordial, Sérgio Buarque de Holanda discorre sobre o impasse entre cordialidade e civilidade, atraso e modernidade, tradição e renovação, privado e público ("O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas [...]").
Sérgio Buarque sempre foi um democrata radical, e não pode ser arrolado na estirpe de conservadores como Gilberto Freyre. Amigos na década de 1920, afastaram-se devido à evolução antagônica de suas posições políticas. Sérgio Buarque disse certa vez ao historiador norte-americano Richard Graham, que Raízes do Brasil foi uma espécie de resposta a Casa Grande & Senzala : seguindo o caminho propossto por Capistrano de Abreu na passagem do século XIX para o século XX, Sérgio Buarque procurou falar do povo, dos mamelucos, e não da oligarquia. "E, em vez de olhar para o Atlântico, olhou para o interior", diz Richard Graham. - Extraído de artigo de José Carlos Rui, aqui na Internet:
http://resistir.info/ .
5. Ainda segundo o articulista, Sérgio Buarque foi um dos fundadores do PT,  podendo, pois, em vista do momento político nacional, e escolhendo-se as palavras certas, serem encurtados os caminhos do convencimento e da própria  rebelião.


Outros extratos de Raízes do Brasil
"Tinha [o engenho de cana-de-açúcar] escola de primeiras letras, onde o padre-mestre desasnava meninos."

As nossas academias diplomam todos os anos centenas de novos bacharéis, que só excepcionalmente farão uso, na vida prática, dos ensinamentos recebidos durante o curso." 

"Habituaram-se [os portugueses e seus descendentes imediatos] a dormir em redes, à maneira dos índios. Alguns, como Vasco Coutinho, o donatário do Espírito Santo, iam ao ponto de beber e mascar fumo."

"Uma suavidade dengosa e açucarada invade, desde cedo, todas as esferas da vida colonial. Nos próprios domínios da arte e da literatura ela encontra meios de exprimir-se, principalmente a partir do Setecentos e do Rococó."

"Já temos visto que o Estado, criatura espiritual, opõe-se à ordem natural e a transcende."

"O prestígio da palavra escrita, da frase lapidar, do pensamento inflexível, o horror ao vago, ao hesitante, ao fluido, que obrigam à colaboração, ao esforço e, por conseguinte, a certa dependência e mesmo abdicação da personalidade, têm determinado assiduamente nossa formação espiritual. Tudo quanto dispense qualquer trabalho mental aturado e fatigante, as idéias claras, lúcidas, definitivas, parecem-nos constituir a verdadeira essência da sabedoria.
... É possível compreender o bom sucesso do positivismo entre nós..."

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COMO NÃO EXECUTAR A OBRA...

Gosto muito de ler suas materias.
  Liane.

DRUMMOND
Somente hoje pude ler o trecho da revista nº 14, onde você comenta o artigo do colunista da Veja sobre Drummond.
Pensei que era somente eu que achava os artigos do referido colunista frutos de um pseudo-intelectualismo para o aplauso de bajuladores que escrevem para a seção Cartas, derretendo-se em elogios ao "grande" colunista.
  Carlos Silva

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  QUALIDADE REAL


COOPERAÇÃO COMO FATOR HUMANO NA QUALIDADE


Luís Renato Vieira
Diretor da empresa Qualidadereal Cons. e Assessoria S/C Ltda.
Empresa especializada em implantação de sistemas da qualidade e gestão ambiental.
qualidadereal@ig.com.br

O sucesso de uma pessoa não pode ser obtido às custas ou à exclusão do sucesso do grupo que esta pessoa participa. Devemos ter como uma meta constante o benefício mútuo.
A possibilidade da cooperação é possível quando o grupo não se sente "pesado" e sim quando suas ações são respostas a naturalidade, a generosidade, a sinceridade de todos.
O grupo deve ter como perspectiva de atendimento ao indivíduo a tolerância, a paciência e empatia, com esta natureza diminui a possibilidade de paralisação dos processos da qualidade dentro das empresas. Os gerentes devem incentivar o pensamento positivo dos trabalhadores neste sentido para facilitar o controle deste processo.
Coexistir pacificamente deve ser uma meta da cooperação dos indivíduos. Para isso necessitamos ser tolerantes.
A tolerância dentro do ambiente de trabalho permite reconhecer a singularidade de cada pessoa e os relacionamentos são facilitados (Isto é muito útil ao gerente para cobrar do subordinado da melhor maneira possível e conseguir dele o cumprimento das metas de trabalho), é a cooperação entre o chefe e o subordinado, componentes da equipe de trabalho. O ambiente familiar é o melhor local para praticarmos a tolerância, no entanto esta deve ser praticada em todos os ambientes que estivermos.
O momento do teste de cooperação, coexistência e tolerância dentro das organizações são na hora da tomada de decisões, neste momento poderá haver descontentamento e é a hora do gerente agir.

"Tolerância não é concessão, não é indiferença. Tolerância é o conhecimento do outro. É respeito mútuo através de entendimento mútuo. Lancemos fora os velhos mitos e adotemos os resultados das pesquisas atuais: O homem não é violento por natureza. A intolerância. A intolerância não está nos nossos gens" - Sr. Federico Mayor - diretor Geral da UNESCO - Um ano para a tolerância - 1995.
 
Aplicar de forma coletiva e individual estes princípios é um processo contínuo de aprendizagem. Nós como gerentes não podemos permitir que o discurso seja um e a pratica adotada dentro da organização seja outra.
Se pretendermos motivar nossos colaboradores trabalhar motivados à praticar qualidade, devemos valorizar mais o ser do que o fazer. Devemos lembrar que o trabalho deve ser realizado pela equipe (trabalho em grupo) onde a cooperação, a tolerância e a coexistência entre os participantes da equipe devem funcionar.
Grupo por definição é um conjunto de pessoas interagindo entre si, conscientes uma das outras. O gerente da organização é por imposição hierárquica o coordenador deste grupo e deve criar as condições de aprendizagem, demonstrar os modelos de comportamento, facilitar o fluxo de informações.
 
Leia outros artigos sobre Qualidade no site do Especialista: http://www.milenio.com.br/qualidadereal
Fone/Fax.: (41) 336-0921

  ÉTICA E EDUCAÇÃO


AS VIRTUDES DO TEMPO

Engº Paulo Sertek
Engenheiro Mecânico, Licenciado em Mecânica e Especialista em Gestão de Tecnologia e Desenvolvimento
Professor de Cursos de Pós-Graduação em Ética nas Organizações e Liderança
Pesquisador em Gestão de Mudanças e Comportamento Ético nas Organizações
Assessor empresarial para desenvolvimento organizacional
Portal educativo:  www.educarei.com.br/site/a6

Na sociedade do chip, do zap, da leitura rápida, do fast food, da velocidade institucionalizada, pode parecer muito estranho o ritmo de maturação das coisas, tanto na Natureza quanto no âmbito das tarefas humanas. O homem não chega a ser o que é sem uma aprendizagem que exige maturação e espera, uma certa repetição e um toque de novidade.
Logicamente, virtude e dificuldade não são de forma alguma termos equivalentes, mas, por outro lado, o mais autêntico nem sempre é o mais fácil e espontâneo, com freqüência coincide com os impulsos mais rudes e com automatismos totalmente inautênticos. Muitas vezes o primeiro que vem à cabeça é uma bobagem ou até uma estupidez que, logo depois, terá de lamentar.

Existe algo assim como que a arrogância da velocidade, que vai desde quem aperta o botão para votar no Congresso até quem muda de canal na TV, passando pelo carro que vai de zero a 100 km/h num abrir e fechar de olhos. Talvez isso explique algumas manifestações de violência física ou verbal que poderíamos chamar de pressa não domesticada. A brutalidade de epítetos e palavrões ou mesmo de afetos é a prova de que está havendo uma deserção perante a dificuldade. Para acertar com a expressão justa ou para cultivar um afeto requer-se um certo controle sobre os impulsos espontâneos. Inclusive pode-se criar a antipatia ou mesmo a inimizade fazendo-as adquirir suas dimensões apropriadas com a passagem do tempo. Toda educação sentimental é uma formação para a temporalidade, uma aprendizagem da oportunidade, da expressividade.

É próprio da nossa sociedade o êxtase perante o fácil. O difícil e insuportável é qualquer coisinha: adiar uma resposta, não conseguir satisfazer imediatamente um desejo, ter de esperar um momento mais oportuno, ser obrigado a suportar uma contrariedade... O mundo da publicidade transmite-nos uma visão das coisas com sorriso fácil, amabilidade sorridente e satisfação imediata. O paralelo antropológico disso é um indivíduo que, acostumado a exigir mais e a receber mais rapidamente, acostumado a esperar menos e a não suportar desaforos, pode chegar a pensar que o normal é a imediata satisfação das necessidades, a simpatia uma obrigação e o tempo um atraso injustificável. Esse tipo de indivíduo dificilmente apreciará o valor dum presente, dificilmente saberá captar o que custa um sorriso arrancado de dentro do mal-estar físico, e mais dificilmente ainda saberá desculpar uma demora ou suportar-se a si próprio em situações de inatividade forçada.

A consciência exata do tempo se tem quando nos negamos a acreditar que tudo está já feito ou quando deixamos de pensar que nada do que foi feito até agora valeu a pena. Um espécime bastante difundido atualmente é o dos salvadores da Pátria, aqueles que afirmam que estão em condições de consertar qualquer coisa -inclusive, o mundo- em dois tempos. Outros se dedicam a formular propósitos vazios ou apelam para um enorme repertório de boas intenções. São duas formas extremas de desconhecimento da complexidade do real, manifestam uma profunda dificuldade para entender que as coisas não são fáceis.

Gostaria de falar sobre duas virtudes do tempo dentro das quais forma-se a trama na qual se cultiva o caráter do homem com o ritmo certo, apropriado à lentidão humana.
Em primeiro lugar está a paciência, a atitude virtuosa perante uma dificuldade inevitável. Caracteriza um tempo tenso entre a atenção e a espera. Trata-se dum tempo laborioso, tempo onde a vitória ainda está longe. Saber esperar é uma das maiores conquistas humanas, mesmo que seja apenas pelo fato de que a impaciência não consegue acelerar o ritmo de crescimento das coisas.

A paciência ensina-nos a viver entre coisas inacabadas, a suportar a demora do seu acabamento. A paciência contém o segredo duma apreciação positiva da passividade. Ensina-nos que há situações nas quais o que devemos fazer é não fazer nada. Não se trata de renunciar definitivamente a agir, trata-se de uma disponibilidade para o que acontecerá. É a virtude que regula o tratamento dado às coisas que não dependem de nós e, portanto, uma virtude fundamental num mundo de complexidade cada vez maior, onde há cada vez mais coisas que não dependem de forma alguma de nós.

Quando perdemos o sentido da paciência significa que não sabemos mais viver com o tempo dos outros. Não existe um tempo soberano do indivíduo todo-poderoso ao qual todos os outros tempos devem adaptar-se, assim como não há um tempo homogêneo e abstrato que transcorre sempre com idêntica velocidade. Cada homem vive o tempo duma maneira diferente e tão variada quanto os fenômenos que lhe acontecem. Não têm o mesmo tempo um funcionário público e um gerente de vendas duma multinacional; não é o mesmo o tempo imediatamente anterior ao parto ou à morte.

O que mais distingue os homens é a sua velocidade: os tipos humanos, as profissões e os caracteres não são outra coisa do que ritmos e relações diferentes com o tempo. Poderíamos fazer também uma tipologia das ideologias e sistemas políticos de acordo com as concepções que têm do tempo.

O respeito dessa diversidade é essencial para construir uma comunidade verdadeiramente humana. Como o tempo de alguém não se ajusta totalmente ao tempo de outrem, toda relação humana que não queira transformar-se em dominação exige paciência. O tempo vive-se no plural. Unicamente a paciência suporta esta pluralidade sem querer a qualquer custo reduzi-la autoritariamente a uma norma comum. Em toda conduta autoritária há um motivo de impaciência. A paciência protege a diversidade e favorece secretamente os mais lentos. Não deixa de ser curioso que uma virtude de aparência conservadora como é a paciência tenha tantas virtualidades democráticas e de solidariedade com os mais fracos (os mais lentos) que, falando do valor tempo, são os novos marginalizados da sociedade ultraveloz.

A segunda é a constância: a dificuldade sustentada. Unicamente a duração avaliza a intenção. É próprio da natureza humana que tudo o que é bom seja avalizado como tal pela passagem do tempo: das boas intenções até as boas Constituições. Qualquer um conhece o heroísmo instantâneo, o lance de generosidade ou a decisão inquebrantável, mas também sabe da fugaz evaporação e do retorno à mediocridade habitual, ao abandono e ao cansaço.

Às vezes confunde-se a constância com a resistência a mudar. A flexibilidade exige uma base de firmeza, da mesma forma que a rigidez esconde muitas vezes uma mal dissimulada insegurança. A constância não é um continuísmo inercial, mas uma facilitação progressiva para o exercício das virtudes. Com o progresso moral as coisas custam menos e valem mais. Diante desta inesperada facilidade abate-se qualquer tipo de rigorismo.

Nessa altura, cabe perguntar-se: ser bom é fácil ou difícil? Para responder bem é necessário atentar para uma deformação intelectual que consiste em apresentar os deveres como trilhas de bitola estreita, seguros e de certa forma cômodos, claros e inequívocos, isto é, apresentar os deveres como modos de proceder que nos eximem de fazer uso da imaginação. Neste ponto coincidem os moralistas e os não moralistas: todos querem tudo tão definido e claro que não se permita nenhuma contribuição pessoal. Querem aplicar mecanicamente uma regra, que nos poupe o esforço de ter de intervir pondo em funcionamento a criatividade individual. De certa forma, descobrimos que os deveres, assim entendidos, são algo chato, mas cômodos, muito mais cômodos do que ter que inventar soluções pessoalmente.

Esta maneira de entender a conduta humana é injusta com o que poderíamos chamar de estrutura interpretativa do dever. Nenhum dever se nos impõe sem vir acompanhado de outras alternativas. O bem é de uma amplitude tal que nunca se apresenta de forma absolutamente exata. Tendemos a pensar o contrário: as possibilidades do mal seriam infinitas, enquanto que o bem se imporia com uma opressiva univocidade. Quem escolher o bem renunciaria à variedade em troca da certeza do mimetismo.

Porém, as coisas apresentam-se de outra forma. A ética é um modo de superar o imediatismo do instinto repetitivo. É um modo de introduzir a ponderação, estabelecendo um tempo sem o qual não haveria outra coisa do que um mecanismo de resposta imediata. É nesse momento anterior à resolução quando se apresentam todas as possibilidades, variantes e nuances que passariam desapercebidas a uma conduta precipitada. Evitar que se imponha o imediatismo é abrir espaço para a imaginação, que funciona precisamente onde há variedade, imprecisão, inexatidão, novidade. Uma obrigação que não abrisse possibilidades facilitaria enormemente a vida, proteger-nos-ia do risco e da incerteza. Mas a condição humana não está de acordo com esse dever sem interpretação. O bem unicamente pode ser feito imaginativamente.

I - Esclarecer e discutir as idéias sobre a ética e o tempo na sociedade atual.

II - Exponha as suas idéias sobre o conceito de ética proposto abaixo, relacionando com as virtudes do tempo e, posicionar a equipe sobre a importância dessas virtudes para os dias atuais, colocando exemplos práti-cos: "a ética é um modo de superar o imediatismo do instinto repetitivo. É um modo de introduzir a ponderação, estabelecendo um tempo sem o qual não haveria outra coisa do que um mecanismo de resposta imediata".

III - Explique as frases:
1. O tempo da paciência é um "tempo laborioso, onde a vitória ainda está longe".
2. "A paciência contém o segredo duma apreciação positiva da passivida-de".
3. "O tempo vive-se no plural".
4. "Unicamente a duração avaliza a intenção".
5. Na sociedade da velocidade "pode parecer estranho o ritmo de maturação das coisas".
6. Toda educação dos sentimentos é uma "formação para a temporali-dade".
7. "A consciência exata do tempo se tem quando nos negamos a acreditar que tudo já está feito ou que nada do que foi feito até agora valeu a pena".
8. Paciência: "atitude virtuosa perante uma dificuldade inevitável".
9. Constância: "facilitação progressiva para o exercício das virtudes".
10. "O bem unicamente pode ser feito imaginativamente".
Aceprensa n. 10 (38/94), 1994.

  MEIO AMBIENTE

PROBLEMAS AMBIENTAIS IV/V

Jornalista Vilmar Berna
Ambientalista de renome internacional e único brasileiro homenageado pela ONU
com o Prêmio Global 500 Para o Meio Ambiente, no ano de 1999.
Fundador do Jornal do Meio Ambiente.
http://www.jornaldomeioambiente.com.br

15. Reciclagem de idéias

Lixo não existe. O que chamamos de lixo nada mais é que matéria prima misturada e fora do lugar. Uma vez esses materiais separados e - muito importante - limpos, deixam de ser chamados de lixo e voltam a ser recursos naturais, matérias primas. A idéia é boa e ecologicamente sustentável e tem funcionado bem em pequena escala. Então, por que não funciona direito em grande escala? Por que ainda há tanta resistência por parte dos serviços tradicionais de limpeza pública e da própria sociedade?

Por vários motivos, todos perfeitamente solucionáveis, se houver vontade política, leia-se, maior pressão da sociedade. O principal deles é o mito que reciclagem dá lucro. O maior lucro da reciclagem não é financeiro, mas social e ambiental. Emprega mão-de-obra não especializada, aumenta a vida útil dos atuais vazadouros, poupa recursos naturais e energia, etc. Lucro mesmo, financeiro, não dá. Mas quem disse que lixo tem da dar lucro? Ninguém exige que a coleta do esgoto dê lucro, por exemplo. Mesmo assim, é possível melhorar um pouco mais, pois os preços dos materiais recicláveis, como metais, plástico, vidros e papéis estão muito baixo, desestimulando novas experiências de coleta seletiva. Conseguir isso é relativamente fácil. Basta uma legislação que obrigue, por um lado, e crie estímulos tributários por outro, para que as indústrias se responsabilizem pelas embalagens que produzem. Hoje, não basta que as embalagens sejam recicláveis. É preciso exigir que as indústrias se responsabilizem também pelo seu retorno ao processo produtivo.

Um bom exemplo de que é possível melhorar é o caso do alumínio. O Brasil tem apresentado os melhores índices do mundo de retorno de embalagens de alumínio. Não é por que o brasileiro é mais consciente ambientalmente ou limpo que o europeu, o canadense ou o norte-americano. Mas porque o preço da reciclagem do alumínio compensa!

Também tem contribuído para atrasar a reciclagem a idéia, em nossa sociedade, que associa lixo à sujeira, à coisa morta, que queremos longe da gente. A reciclagem está associada à vida, devolvendo à natureza e ao processo produtivo materiais e recursos que estavam sendo desperdiçados. Por isso os sistemas tradicionais de coleta de lixo tem conseguido dominar as políticas públicas no país. Eles simplesmente se propõem a coletar, transportar e dar destino final ao lixo. Ou seja, tira o problema da porta do cidadão. E pronto. Já a reciclagem exige que o cidadão, a dona de cada, o empresário participe, separe em sua casa ou na empresa os materiais secos (papel, plástico, metal e vidro) dos molhados (restos de comida, cascas de fruta, papel usado, etc.). Dá mais trabalho. Exige que "mexa" no lixo.


16. Denúncias ambientais que não podem calar

A preservação do planeta não é uma tarefa fácil, mas um grande problema se torna menor quando nos dispomos a resolver os pequenos problemas que estão ao nosso alcance. O Planeta que desejamos ver preservado é formado de milhares de pequenas partes, que inclui desde a árvore em frente de casa ao nosso País. Assim, os ambientalistas costumam dizer que é preciso pensar globalmente e agir localmente.

Olhando de perto, aqui para este nosso pequeno pedaço de mundo, vemos que o Brasil, longe de um ambiente inteiro, anda divido em muitos pedaços agredidos. O fato dos problemas ambientais não ocuparem mais as manchetes dos jornais, não significa que tenham sido resolvidos. Revendo algumas matérias publicada no Jornal do Meio Ambiente no último ano, constatamos que, longe de uma solução, os problemas ambientais estão se agravando, clamando, exigindo de cada um de nós mudanças de atitude, participação, solidariedade e cidadania.

Espero que o Prêmio Global 500 da ONU para o Meio Ambiente, que estarei recendo em Tóquio, no dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, contribua de alguma forma para ampliar a voz dos ambientalistas quanto aos enormes desafios que a humanidade ainda tem pela frente.


Biodiversidade

A primeira denúncia é em relação à preservação da biodiversidade, que vai muito mal em nosso país. Segundo estudo do WWF, realizado a partir de dados coletados junto aos chefes das unidades de conservação, em abril de 1998, revela que a área efetivamente protegida no Brasil é muito menor do que o indicado nas estatísticas oficiais: as 86 unidades de conservação federais de uso indireto estudadas protegeriam, somadas, 1,85% do território nacional; mas, descontando-se os parques e reservas em situação precária, o total protegido de fato cai para apenas 0.4%. Isso coloca o Brasil bem abaixo da média mundial, que é de 6%.


Saneamento

A falta de saneamento continua sendo, de longe, o maior problema ambiental do Brasil. Pesquisa realizada pela ABES e pelo IBGE mostrou que 70% das internações em hospitais públicos são devidos a doenças causadas pela falta de saneamento básico. A taxa de mortalidade infantil é de 58 em cada 1.000 habitantes (em Cuba, por exemplo, é de 14 em cada 1000 habitantes e na Argentina de 29 em cada 1000 habitantes). Trinta por cento das mortes de crianças com menos de um ano de idade são por diarréia. Apenas 30% da população brasileira é atendida por redes coletoras. Ou seja, cerca de 75 milhões não dispõem de serviços de esgotos. O volume de esgotos tratados é extremamente baixo, com apenas 8% dos municípios apresentando unidades de tratamento. A coleta de lixo atinge menos de 50% da população urbana. Apenas 3% do lixo tem disposição final adequada; 34% é acumulado a céu aberto e 64% é jogado nos rios. O Governo Federal cortou aproximadamente R$200 milhões de recursos do orçamento para saneamento básico.


Desperdício

Ainda segundo o IBGE, continuamos sendo o país do desperdício e da sujeira. Dos 4.425 municípios brasileiros, 78% dispõem de serviço de limpeza pública, 86% lançam o lixo coletado em lixões a céu aberto, apenas 49 possuem aterros sanitários e 31 possuem usinas de compostagem, que nem sempre funcionam, devido a projetos inadequadas ou problemas de manutenção. A coleta domiciliar de lixo atinge menos de 50% da população urbana. O Brasil produz cerca de 5 milhões de toneladas de papel por ano, das quais apenas 30 % são reciclados (Holanda, Dinamarca, Espanha e Israel reciclam em torno de 70% de seu papel). Por dia, jogamos no lixo de nossas casas 90 mil toneladas de materiais como papel, metais, vidros, plástico, etc. Desse total desperdiçado, não reciclamos nem um décimo.


Queimadas
O Brasil continua batendo recordes de queimadas. O megaincêndio de Roraima no ano passado mostrou a incapacidade do Poder Público em agir de forma consistente. De acordo com as estimativas do Governo do Estado de Roraima a devastação chegou a 40.000 km2 de áreas abertas (campos, cerrados, pastagens etc.) e aproximadamente 10.000 Km2 de florestas, cerca de 22% da área total do Estado. Os dados do Núcleo de Monitoramento Ambiental da Embrapa e da ONG Ecoforça, de Campinas/SP, indicam que o número de queimadas no centro-oeste subiu 220% em 1998, em relação ao ano de 1997. Esse índice foi baseado em rastreamentos noturnos do satélite NOAA 12. Dados do Programa de Prevenção e Controle às Queimadas e aos Incêndios Florestais no Arco do Desflorestamento - PROARCO, sob responsabilidade do INPE e IBAMA, apontam um crescimento acentuado dos focos de incêndio no País. Comparando-se os dados dos meses de setembro a outubro de 1997 com os mesmos meses de 1998, os focos detectados passaram de 52.025 para 84.363, o que significou um incremento de 60%.


Amazônia

A Amazônia perde 16 mil Km2 por ano de florestas. O INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) divulga dados que mostram que desmatamento na Amazônia Legal Brasileira atingiu no período 94/95 seu recorde histórico. Em um ano foram eliminados 2.905.900 hectares de florestas, montante superior à soma das áreas do estado de Sergipe e do Distrito Federal e o dobro da média anual verificado no período anterior (92/94). Esse número é, ainda, cerca de 37% superior ao da média anual do período 78/88, a chamada década da destruição, que motivou a enorme mobilização internacional pela proteção da Amazônia. Com os novos números a área total desmatada na Amazônia atinge 51 milhões de hectares, mais do que o dobro da área do estado de São Paulo de florestas eliminadas do mapa. Segundo o IBAMA, existem hoje na Amazônia 3.000 madeireiras. Quase a totalidade delas exploram a madeira de forma predatória. Sem cuidado com a preservação e derrubando todo o tipo de árvore, o estrago é grande. Hoje, ainda segundo o IBAMA/AM, existem apenas seis madeireiras que exploram a madeira da selva utilizando técnicas de manejo florestal.


Desertificação

O desmatamento desenfreado e as práticas erradas de uso do solo fazem com que a cada minuto, 12 hectares de terra virem deserto no mundo. Segundo estudos feitos pela ONU, há mais de 10 milhões de refugiados ambientais, ou seja, pessoas que foram obrigadas a migrar para outros países devido à seca e à perda da fertilidade do solo. Aproximadamente 180 mil quilômetros quadrados de terras brasileiras, a maior parte delas na região nordeste, estão virando deserto. Apesar disso, os planos de combate à desertificação até agora não saíram do papel. Em alguns estados do Nordeste, o intenso desmatamento provocou mudanças climáticas que evoluíram para um grau de desertificação visto somente no continente africano. As informações divulgadas na reunião revelam um grau de desertos na ordem de 63% na Paraíba, 52% no Ceará, 36% no Rio Grande do Norte, e ¼ em Pernambuco.


Legislação Ambiental

E se não bastasse tudo isso, o Governo Federal ainda promoveu retrocessos na legislação ambiental brasileira no ano de 1998, como os vetos presidenciais à Nova Lei de Crimes Ambientais, abrandando crimes como fazer ou usar fogo em florestas e outras formas de vegetação sem tomar as devidas precauções para evitar a sua propagação. Em julho, o Presidente Fernando Henrique assinou o Decreto nº 2.661/98 que não prevê proibição para queima próxima às Áreas de Preservação Permanente e Reserva Legal e, quanto às unidades de conservação, estabelece proibição de uso do fogo apenas a 50 metros a partir dos aceiros. Em agosto, o Governo Federal publicou a Medida Provisória nº 1.710 que debilitou a efetividade da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98) por um período que pode alcançar seis anos. A MP concede a empreendimentos danosos ao meio ambiente a possibilidade de celebrarem "termo de compromisso". Durante a vigência do acordo ficam suspensas as sanções administrativas Na prática, a MP permite que tais empreendedores cultivem seu passivo ambiental por até seis anos, já que a vigência do termo de compromisso é prorrogável pelo mesmo período fixado. Em novembro, o Governo Federal altera redação da Medida Provisória (MP) nº 1.736-31, que vem sendo reeditada desde 1996, promovendo alterações significativas na Lei nº 4.771/65 (Código Florestal) fragilizando os instrumentos legais de proteção de ecossistemas florestais e do Cerrado localizados em propriedades rurais privadas, propiciando o incremento na taxa de desmatamento, principalmente na Amazônia Legal. Agora, os fazendeiros poderão desmatar, na Amazônia, áreas que antes seriam destinadas à implantação da reserva legal e, no caso daqueles que já desmataram tais áreas, poderão ser desobrigados de executar sua recomposição. As áreas de reserva legal em região coberta por Cerrado foram reduzidas de 50% para 20%. Além disso, propriedades que mantêm a reserva legal implantada e protegida poderão pedir sua redução e, conseqüentemente, desmatá-la, pois passam a poder computar as áreas de preservação permanente cobertas por florestas (margem de cursos d´água, topos de morro, terrenos com alta declividade, entorno de nascentes e lagoas) no percentual total de reserva legal.


Cortes no Orçamento

A política ambiental sofreu um duro corte orçamentário em função do ajuste fiscal e do acordo com o FMI. O PROBIO, financiado em 50% com doação do GEF, teve seu orçamento cortado em 87,5%; o Plano Piloto de Proteção das Florestas Tropicais Brasileiras (PP-G7), foi praticamente liquidado através de cortes de 90% e o PNMA (Programa Nacional do Meio Ambiente), que dependeria de empréstimo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) foi cortado em 100%, ou seja, acabará extinto.


17. Uma chance para a natureza

A criação de unidades de conservação, como parques, reservas e áreas de proteção, tem sido um instrumento muito utilizado pelo poder público para preservação da biodiversidade da Mata Atlântica, manguezais, restingas, campos de altitude, etc. O Rio de Janeiro, por exemplo, já teve cerca de 97 por cento do seu território coberto por florestas , reduzidas, hoje, a apenas, 20, 24 por cento da área original, segundo o Atlas de Remanescentes Florestais da S.O.S. Mata Atlântica, que continuam sendo agredidos, segão agropecuária e demanda turística na zona litorânea.

Estão preservados em parques, reservas e áreas de preservação do Rio de Janeiro aproximadamente 2600 quilômetros quadrados, a cerca de 28 por cento remanescentes de vegetação natural, o que é muito pouco, considerando-se que são vitais para manter a regularidade do clima, os lençóis freáticos que abastecem a população, o desenvolvimento do turismo, enfim, a qualidade de vida humana. Além disso, nestas ultimas testemunhas verdes da nossa antes exuberante natureza, vivem milhares de espécies de plantas e animais ameaçados de extinção, se quer estudadas, onde pode estar a solução para doenças como AIDS, câncer, além de abrigarem comunidades tradicionais, como os povos caiçaras, que se constituem em verdadeiras " bibliotecas " vivas de conhecimentos sobre esses ecossistemas, tão ameaçados de extinção quanto o habitat que ocupam.

O problema é que, mesmo nas áreas já declaradas como unidades de conservação, a natureza não tem a garantia de estar de estar protegida. Por falta de recursos públicos- e de vontade política- para efetiva preservação dessas áreas, e apesar de toda a legislação ambiental, elas têm permanecido, com raras exceções, praticamente abandonadas. Não passam de " parques de papel".

E este é um drama muito sério para os ambientalistas. Ao mesmo tempo que, por um lado, reivindicam a criação de novas áreas preservadas em lei, dada a baixa representatividade do atual Sistema de Unidades de Conservação no Estado do Rio, por outro, reconhecem a incapacidade do poder público de cuidar sequer das áreas já existentes. Desde 1992, os Defensores da Terra (ONG fundada e presidida durante 10 anos pelo autor), com o patrocínio da iniciativa privada e apoio de ONGs locais, mantém a campanha "Vamos Tirar a Natureza do Papel", além de mover ação judicial no Ministério Público contra o estado, pelo abandono de parques e reservas. Mas só isso não basta .

Os ambientalistas reconhecem que o estado, sozinho, não dará conta da tarefa, principalmente faltam recursos para remédios nos hospitais, merenda nas escolas, armas para a polícia, etc. Por isso, a co-gestão da administração das unidades de conservação, com a participação de ONGs, universidades, prefeituras e iniciativa privadas, pode ser uma saída para preservar as atuais unidades e ainda amplia-las, com a criação de novas áreas. Isso exige avançar de uma visão onde o estado todo - poderoso, paternalista, cuida de tudo que é do interesse público, para a visão de um estado estimulador e coordenador de esforços de preservação da sociedade organizada. Parte do princípio de que é dever de todos cuidar do patrimônio ambiental da humanidade, e não apenas do poder público.

As ONGs e as universidades, com o auxílio das prefeituras, comunidades locais, especialmente dos povos tradicionais e o patrocínio de proprietários rurais, empresários do ramo do turismo e da iniciativa privada, reúnem condições para assumir a co-gestão, com o estado, dessas unidades de conservações, hoje abandonadas, garantindo a pesquisa, educação ambiental, vigilância permanente contra incêndios, elaboração e execução de planos diretores, implantação de atividades de desenvolvimentos sustentável que garantam o auto-sustento das unidades, etc. Enfim, implantar efetivamente as unidades de conservação, tirando-as do papel. Em vez de constituírem, como ocorre hoje, em verdadeiros entraves, que imobilizam partes de significativas de territórios municipais, as unidades de conservação poderão se transformar para o desenvolvimento local.

Isso pode ser uma solução para o problema das unidades de conservação existentes, atualmente abandonadas, mas não resolve o problema da necessidade de se criar novas áreas preservadas.

O estado do Rio, por exemplo, possui ainda boa parte de seu território recoberto por vegetação natural remanescente, onde novas unidades de conservação poderiam ser criadas, como a região ao norte do Rio Paraíba do Sul, entre os limites com os estados do Espírito Santo e Minas Gerais, o litoral norte do estado, a partir da região de Cabo Frio, a faixa que vai do litoral até da divisa com Minas Gerais, atravessando a Serra do Mar, onde as altitude são menores, entre os municípios de Nova Friburgo e Santa Maria Madalena e ao longo do Vale Paraíba do Sul, Oeste da Serra do Mar, entre outras, segundo o Dossiê da S.O.S. Mata Atlântica, de 1992.

Muitos proprietários rurais com consciência preservacionista, por sua vez, apesar de possuírem áreas naturais preservadas e se esforçarem para mantê-las assim, não têm interesse em ceder suas áreas ao poder público, pelo simples motivo de que ele já não cuida direito das áreas que possui.

Tramita hoje na Assembléia Legislativa um projeto de lei que pode solucionar este problema, já que autoriza estados e municípios a criarem as reservas particulares do patrimônio natural, a exemplo do que já existe na legislação federal. O objetivo principal é formar contínuos florestais, zonas de amortecimento dos parques e reservas públicas, corredores da fauna e flora, sem onerar ainda mais os cofres públicos com custosas desapropriações que acabam nunca acontecendo.

A pedido do proprietário rural, o estado ou as prefeituras poderão criar, no todo ou em parte da propriedade, uma reserva particular do patrimônio, recebendo em troca isenção de impostos, além de outros incentivos. O proprietário poderá cancela-la mais tarde, se quiser, desde que justificado e assegurada a proteção ambiental. Também poderá permutar suas áreas naturais por dívidas com o poder público. O esforço de preservar as áreas naturais deixa, assim, de ser um ônus para seu proprietário e passa a ser um bônus.

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